terça-feira, 18 de fevereiro de 2014




Néctar de Letras e Imagens: Que tal lermos um bom livro?

Ana Maria Haddad Baptista

 
Mulher concentrada na leitura de uma subjetividade /Rose Marie Silva Haddad


Muitas vezes na literatura temos um grande cronista, ou seja, aquele escritor que por meio de textos breves  consegue captar do cotidiano um lapso e transformá-lo, via de regra, num texto saboroso. Tal tipo de gênero possui muita aceitação entre o público brasileiro desde o século XIX.
Um solitário à espreita, Milton Hatoum, Cia das Letras, foi escrito por um  dos maiores romancistas brasileiros da atualidade. Milton Hatoum há muitos e muitos anos tem demonstrado, de longe, ser um escritor que na linguagem é bastante econômico, exato, pontual (lembra de leve Graciliano Ramos, Guimarães Rosa) e consegue dar profundidade a todos os temas aos quais se propõe a tratar. Merecidamente ganhou diversos prêmios em Literatura.
Na obra em referência o escritor brasileiro oferece ao público crônicas bastante especiais em todos os sentidos. Na verdade, as crônicas foram publicadas em jornais e revistas nos últimos dez anos (como o próprio autor notifica no início do livro) e misturam-se imagens captadas do dia a dia, assim como fragmentos de memórias do autor, como no seguinte trecho em que Milton se refere à avó: “Quis o acaso que eu fosse um de seus netos queridos. Com os filhos ela era implacável, como são as mães de uma penca de marmanjos. Quando os seis homens da casa se atracavam como gladiadores e berravam camelôs em pânico, bastava um olhar da matriarca para que os vozeirões se rebaixassem a miados de angorá. Podiam brigar por dinheiro, futebol ou política, mas nunca por amor a uma mulher, já que a única mulher na vida deles era ela mesma.”
Um solitário à espreita, nestes tempos de loucura temporal, quando o tempo se tornou uma espécie de mercadoria mais preciosa do que o próprio dinheiro (gente bilionária possui bens, muito e muito dinheiro, mas não consegue tempo, inclusive, para gastá-lo), é um livro que pode ser lido aos poucos, visto que os textos são independentes.
Mas os textos, embora independentes entre si, visto que cada crônica é um tema, possuem traços  em comum. Quais seriam os mais essenciais? Um deles é o grande humor aliado a um amargor suave do narrador/escritor, como por exemplo: “Em novembro a sorveteria fechou. Ghodor socorreu o irmão, mas este teve de vender sua casa, sua lambreta velha e os anéis que iam brilhar nas mãos de sua recente namorada, uma beleza cabocla muito mais vaidosa que idosa. Até os copinhos de papel foram a leilão.” Um outro traço que irmana  as crônicas é a ironia. E uma ironia fina, elegante, que, via de regra, faz o leitor mergulhar agudamente em suas próprias situações, eis um ponto fundamental desta obra. Se uma crônica, conceitualmente, é um texto leve,  as crônicas de Hatoum conseguem a proeza de nos lembrarmos de nossas vivências, também, com certa leveza , de que apenas uma boa literatura consegue. E, finalmente, o nosso escritor faz uma advertência bastante importante a respeito da Literatura: segundo ele,  para muitos escritores a fonte de suas narrativas estaria nas memórias de infância e juventude. “A memória incerta e nebulosa do passado acende o fogo de uma ficção no tempo presente.” Comenta que as experiências vividas por um escritor são muito importantes por aqueles que elegem as letras. Contudo, assegura o autor, para aquele que aspira ser um escritor há um elemento fundamental: a leitura. Com isso, inferimos, uma vez mais, quer o escritor, ou qualquer um de nós, para que, realmente, possamos penetrar em outros universos, em especial o filosófico, o domínio de linguagem é o grande passo. Entretanto, o grande passo para o mundo da linguagem em geral  possui somente um caminho: LITERATURA. A leitura da obra em questão possibilitará excelentes encontros com as imagens e letras que o autor nos sugere!

Obs: Grande parte deste texto já foi publicado por outros canais.




Nenhum comentário:

Postar um comentário