quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016


Educação e Memórias na obra de  Edward Said

Ana Maria Haddad Baptista


De acordo com as inúmeras fontes que temos, ora da Psicologia, ora da Biologia e outras áreas do saber, nosso passado, em particular, o individual, é lido, sentido e vivido sob a ótica do presente. Uma espécie de condenação humana. Diga-se que tal condenação é necessária. Que triste se jamais deixássemos de esquecer algumas coisas. Sabe-se que a memória, para nossa (in)felicidade, filtra, hierarquiza e seleciona o que mais temos de significativo para ser interpretado no presente. Seres intratemporais... fluímos. O tempo passa. Cultiva temporalidades indiferentes.  Nós mudamos a cada milésimo de segundo. Nada se fixa. Eternizamos, subjetivamente, alguns momentos.
Fora do Lugar: memórias de Edward Said, tradução de José Geraldo Couto, Cia das Letras, é um verdadeiro exercício de memória do autor. Uma obra fascinante. Autobiográfica. Edward Said nasceu em Jerusalém (1935) e, infelizmente, morreu em 2003. Considerado  um dos maiores intelectuais de todos os tempos. Teve uma formação humana muito sólida aliada a uma educação familiar bastante rígida. Viveu boa parte de sua vida no  Cairo e em alguns países árabes. Cursou universidades americanas. A de Princeton e  Harvard. Nessa medida, possui, com muita segurança, bastante ponderação cultural, além de uma incrível sensibilidade ao analisar questões relacionadas entre o Oriente e o Ocidente. Aliás, tais ponderações foram as principais causas que deixaram Said tão reconhecido em todo o mundo. Pode-se afirmar que Said, por sua extrema sensibilidade e profundo respeito pelo ser humano, consegue equilibrar suas tendencialidades, das quais ninguém, praticamente, consegue escapar, ora por força de uma formação, ora por força de uma paixão quando reflete as mais diversas questões a respeito de cultura, religião e política.
Nesta obra autobiográfica ele declara: “este livro foi escrito em grande parte durante períodos de doença ou tratamento, às vezes em casa, em Nova York, às vezes desfrutando da hospitalidade de amigos ou instituições na França e no Egito. Comecei a trabalhar em Fora do lugar  em maio de 1994, enquanto me restabelecia de três sessões iniciais de quimioterapia para tratamento de leucemia.” Said lutou contra  a doença por mais ou menos dez anos. Até ser definitivamente vencido por ela. No entanto jamais parou de escrever. A doença  foi determinante na firme decisão de  escrever um livro de memórias, cuja perspectiva predominantemente subjetiva o autor não nega.
A obra  não segue uma cronologia linear (e sem graça) da infância até o momento em que ele relata suas memórias, ou seja, os momentos de reflexão em que o autor recupera fatos de sua vida. Há um longo exercício de vai e vem que é um dos pontos altos deste livro porque causa uma tensão textual vigorosa que prende o leitor. Quer se saber mais e mais do autor. E, nessa medida, somos, agradavelmente, transportados para o Cairo do início do século XX. Um Egito completamente distinto do que se apresenta hoje, entre outros motivos, porque a Palestina ainda não tinha se dividido. Somos transportados para Beirute e para as montanhas do Líbano. Os veraneios da família do autor, via de regra, eram no Líbano (sua família era extremamente abastada). As impressões de infância do autor são reportadas, em grande grau, para a escola e para seus pais.
Said estudou em diversas instituições. Ora de composição inglesa, ora de composição americana. E com isso traça, involuntariamente, uma verdadeira história da educação. A atitude dos professores. O regime escolar. E há coisas de causar espanto a educadores, estudantes e pesquisadores: mesmo em se tratando de escolas pagas e consideradas de alto nível cultural, os regimes escolares como um todo, são profundamente injustos, desinteressantes e cheios de “castigos”. Por conta dos relatos do autor podemos tecer comparações com a situação atual das escolas e vemos, em grande medida, o quanto avançamos em relação às discriminações (por mais que elas existam). Nas palavras de Said: “Ficávamos perfilados ali supostamente [na escola] para ser contados e acolhidos ou dispensados. (...)Isso parecia um educado ritual para camuflar o sacrifício de ficar em fila, onde tinha lugar todo tipo de coisas desagradáveis. Como éramos proibidos de abrir a boca na classe, exceto para responder as perguntas de professores, a fila era a um só tempo um bazar, uma casa de leilão e um tribunal, onde eram trocadas as mais extravagantes ofertas e promessas, e onde as crianças menores eram intimidadas verbalmente pelos meninos mais velhos, que as ameaçavam com os mais medonhos castigos.”
Após o ensino médio Said foi para a Universidade de Princeton e, posteriormente, para a Harvard. Somente depois de ter sofrido todas as formas possíveis de incompreensões por parte de sua família, de seus professores e diretores. Por quê? Porque seu comportamento, em geral, não trilhava pelo que se esperava de um bom menino. Dócil, obediente e que concordasse com tudo. Said sempre se mostrou rebelde e mais centrado naquilo que lhe interessava. Somente começou a se destacar no plano intelectual durante o  ensino médio.
Finalmente, a leitura das memórias de Said nos proporciona uma das maiores lições para pais, professores, estudantes e professores, ou seja, o quanto as escolas sempre foram cegas a alunos contrários aos cânones. E vale ressaltar, uma vez mais: o quanto o sistema escolar costuma jogar fora grandes talentos e insubmissos. Said é mais um exemplo daqueles que sofridamente conseguiu escapar do sistema e mostrar que a autenticidade e  convicção devem ser perseguidas a qualquer preço. Não há grandes desafios e quebra do estabelecido sem grandes penalidades para a alma. Eternamente a solidão perseguirá convictos por um mundo mais humanizado. Digno de ser comtemplado.
Desta maneira, eis aqui mais uma sugestão de leitura, em especial, para meus alunos e ex-alunos. Felizmente, de tempos em tempos, tenho retornos maravilhosos de ex-alunos, que graças a algumas indicações de leituras de meus cursos, até hoje conseguem admirar e desfrutar daquilo que somente a literatura pode nos trazer: insubmissão, admiração, indignação. Três paixões que juntas formam um poderoso antídoto contra o tédio, a injustiça, a melancolia e todas as espécies de paixões tristes tão proliferadas em nosso cotidiano.
Obs: Este texto, em grande parte, foi publicado pela Revista Filosofia da editora Escala.