terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

Boechat: vozes plurais





Boechat: vozes plurais

Ana Maria Haddad Baptista



Lamentamos, profundamente, a perda de uma voz plural. Insubmissa. Insubordinada. Deixamos aqui uma das expressões máximas da poesia portuguesa, Sophia de Mello Breyner Andresen,  para que possamos refletir   Boechat e o grande vazio que nos atravessa e atravessará:

Com fúria e raiva

Com fúria e raiva acuso o demagogo
E o seu capitalismo das palavras

Pois é preciso saber que a palavra é sagrada
Que de longe muito longe um povo a trouxe
E nela pôs sua alma confiada

De longe muito longe desde o início
O homem soube de si pela palavra
E nomeou a pedra a flor a água
E tudo emergiu porque ele disse

Com fúria e raiva acusou o demagogo
Que se promove à sombra da palavra
E da palavra faz poder e jogo
E transforma as palavras em moeda
Como se fez com o trigo e com a terra

segunda-feira, 29 de outubro de 2018




Poéticas da leitura:  por uma estética dos encontros felizes

Ana Maria Haddad Baptista






Poetas  e filósofos sensíveis, comprometidos, sempre destacaram a poética dos encontros. Muitas vezes encontramos amigos. Outras vezes um livro (a eterna reserva de vida).  Ou certas pessoas que fizeram parte de nossa história.
Dia 23 de outubro tivemos um encontro fundamental. Alunos, professores, pesquisadores, artistas e poetas. Numa dimensão única para acolher o poeta, tradutor, ensaísta, romancista, Marco Lucchesi. Foi um encontro dos mais inesquecíveis. Um evento com os ecos e ressoares das paixões alegres. E, num certo momento,  a música. Aquela linguagem que irmana e encanta.

terça-feira, 4 de setembro de 2018


Museu, tempo-memória, desmemórias

Ana Maria Haddad Baptista





Museu

Há pratos, mas falta apetite.
Há alianças, mas o amor recíproco se foi
há pelo menos trezentos anos.

Há um leque – onde os rubores?
Há espadas – onde a ira?
E o alaúde nem ressoa na hora sombria.

Por falta de eternidade
juntaram dez mil velharias.
Um bedel bolorento tira um doce cochilo,
o bigode pendido sobre a vitrine.

Metais, argila, pluma de pássaro
triunfam silenciosos no tempo.
Só dá risadinhas a presilha  da jovem risonha do Egito.

A coroa sobreviveu à cabeça.
A mão perdeu para a luva.
A bota direita derrotou a perna.

Quanto a mim, vou vivendo, acreditem.
Minha competição com o vestido continua.
E que teimosia a dele!
E como ele adoraria sobreviver!        [Wislawa Szymborska]



            Mundo onde imperam desmemórias... nada como uma travessia poética para exercitar o pensamento.

sexta-feira, 18 de maio de 2018



O prêmio Jabuti e seus filhotes



Ana Maria Haddad Baptista



Denomino filhotes do Jabuti todos aqueles que sustentam a grade que envolve as estratégias do prêmio em referência. Que tal refrescarmos a memória? Homero, Hesíodo,  Dante, Goethe, Machado de Assis e tantos outros, verdadeiros mestres da literatura universal, jamais ganharam o Nobel de literatura.  Muito menos o prêmio Jabuti.
Anunciam-se as novas regras que pretendem "democratizar" a participação ao prêmio. No entanto, os preços de inscrição, tanto para autores independentes como para as editoras, são altíssimos.
E, finalmente, de acordo com as normas impostas deverão premiar projetos de incentivo à leitura. O que significa isso? O que são projetos de incentivo à leitura? Salas de leitura? AH...sim, a muito "em moda" contação de histórias!  Ou estratégias assistenciais que jamais garantem um futuro leitor? Porque leitura não pode ser hábito. Hábito é escovar os dentes, pentear os cabelos, tomar banho e tantos outros.
Leitura, de uma vez por todos, é necessidade:


Aquela que revela nossas insuficiências.
Aquela que revela nossas dissonâncias.
Aquela que revela nossas infelicidades.
Aquela que revela nossas reais incompletudes.

Como capturar um leitor para sempre? Não existem projetos e nem fórmulas. Quem sabe um professor? Aquele que jamais desiste de possibilitar aos estudantes, de todos os níveis e graus, a literatura, infinitamente consistente,  e consiga provar o seu valor? Quem sabe?



sexta-feira, 16 de março de 2018

Justiça: poesia e verdade como possibilidade


Ana Maria Haddad Baptista




            O  movimento artístico denominado  Romantismo foi, como se sabe, um dos movimentos mais influentes, em diversos sentidos, para se repensar valores humanos. Não ficou restrito apenas às artes em geral ou à literatura. Filosoficamente foi um movimento muito forte, em especial, na Alemanha, França e mais alguns países europeus.  A influência do Romantismo, de alguma forma,  em todas as esferas do pensamento, continua sendo muito grande até os dias de hoje.
            A obra Poesía y verdad de Johann Wolfgang Goethe (1749-1832), Alba Editorial,  Barcelona, é uma  autobiografia do famoso escritor alemão que foi um dos grandes representantes do romantismo alemão. Goethe foi poeta, romancista e advogado.  Um livro brilhante que não se encerra numa simples autobiografia. Em se tratando do gênero surpreende a cada momento. Em princípio porque não se trata de um retrato autobiográfico comum. O livro carrega a mesma carga escritural literária de outros famosos livros do autor. Goethe relata  a sua infância entre os livros da  farta biblioteca de sua casa. Para a época era uma das maiores bibliotecas particulares que alguém poderia ter. Nessa medida, entre outras coisas, nos dá a conhecer a formação escolar que teve, ou seja: teve o privilégio de ter professores particulares excelentes, como era costume à época das famílias abastadas. Relata também as falhas das escolas públicas com o descaso por uma educação de qualidade.
            Em outro momento da obra  trata diretamente de sua vida enquanto universitário. Nessa perspectiva, o leitor terá uma visão detalhada da formação em Direito no século XVIII. Vale ressaltar o senso crítico do autor em relação à sua formação enquanto advogado e, também, das disciplinas e exigências de uma universidade alemã. Em suas palavras: "No es conveniente que los profesores, al igual que otros empleados en cargos públicos, tengam la misma edad. Não obstante, los más jóvenes sólo ensenan para aprender (...) Entre los profesores de más edad, por el contrario, algunos hace ya tiempo que se mantienen estacionarios".  
            Ao longo da leitura do livro, nós leitores, podemos fazer grandes reflexões ao compararmos, involuntariamente, o sistema universitário alemão da época com o do Brasil. Percebemos, inclusive, o quanto a escola ideal, em todos os níveis e graus, carrega falhas em qualquer lugar do mundo. Por um outro prisma, a grande lição de Goethe é mostrar que uma pessoa pode ter diversos interesses. O poeta alemão, mesmo enquanto advogado (atuou por apenas alguns anos), jamais deixou de ter interesse por literatura, música clássica, botânica (foi autor de diversos tratados a respeito do assunto). Em outras palavras: a formação integral de um homem sempre  dará  amplitude aos tortuosos caminhos que conduzem à verdade, paz e justiça. Trio indissociável.

Observação: Este texto foi publicado na Revista Visão Jurídica de no. 138.