segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

 O tempo livre do movimento

Ana Maria Haddad Baptista



Alice e o espanto da interioridade


Para Kant, o tempo e o espaço são condições, formas para tudo o que aparece ao homem. Segundo o filósofo o tempo e o espaço não pertencem às coisas tal como elas são em si mesmas e, sim, como formas de todo e qualquer fenômeno. De acordo com as teorias propostas por Deleuze [1] Kant operou uma verdadeira reviravolta no pensamento filosófico. O tempo deixa, a partir dos conceitos kantianos, de ser percebido somente enquanto uma categoria exterior ao homem. [2]
Kant concebe a razão como uma forma pura e como tal, esvaziada de conteúdos. Tal forma seria inata, “a priori” e não poderia ser adquirida por intermédio da experiência. Nessa perspectiva, os conteúdos é que dependeriam da experiência. Também as estruturas da razão não poderiam conhecer a realidade tal como ela é, em si mesma. Segundo Kant o homem possui duas formas de sensibilidade: o espaço e o tempo.
Kant, de acordo com Deleuze,  vai operar uma mudança radical em relação ao pensamento clássico; a partir do filósofo germânico seria como se o tempo de desenrolasse, se desencurvasse, um círculo que se desprendesse e passasse a ser uma linha reta pura, daí a grandiosidade e a grande novidade, digamos assim,  dos conceitos kantianos.  O tempo se livra e se desvencilha do espaço, adquire, essencialmente, uma total independência – até então completamente desconhecida – uma forma pura. [3]
Deleuze deixa claro que o tempo não toma lugar do espaço, mas, sim, deixa de ser uma espécie de obstáculo para o pensamento; limite que opera o pensamento em sua interioridade, que o transpassa e o atravessa de um lado para o outro, posto que é um limite inerente interior, ao passo que na filosofia clássica o espaço é determinado como limite exterior ao pensamento.

Não é o tempo que nos é interior, ou ao menos ele não nos é especialmente interior, nós é que somos interiores ao tempo e, a esse título, sempre separados por ele daquilo que nos determina afetá-lo. A interioridade não pára de nos escavar a nós mesmos, de nos cindir a nós mesmos, de nos duplicar, ainda que nossa unidade apareça. Uma duplicação que não vai até o fim, pois o tempo não tem fim, mas uma vertigem, uma oscilação que constitui o tempo, assim como um deslizamento, uma flutuação constitui o espaço ilimitado.[4]
           
Conforme depreende Deleuze, a partir de Kant, a interioridade passa a se constituir enquanto um processo introspectivo que não tem limites e a forma do tempo estará instituída no pensamento. A subjetividade, principalmente, a partir de Kant tomará outros rumos, até então nunca pensados, por isso Deleuze insiste na importância das  teorias kantianas a respeito do tempo e do espaço.  Tais categorias nunca mais serão as mesmas e terão outros rumos, especialmente, nos séculos  XIX e século XX.
Nessa perspectiva, o tempo está despreendido do movimento dos astros tal como formularam, de alguma maneira, Platão e Aristóteles. A subjetividade ganha contornos, impensáveis, em relação à Antiguidade grega. Olhamos o mundo interior com outros olhos. A introspecção ganha nitidamente uma profundidade sem precedentes.



Obs: Grande parte deste texto já foi publicado por outros canais.


[1] Crítica e Clínica, p. 40.
[2] Para aprofundamento de tais questões  ver as considerações a respeito do assunto no livro Tempo-Memória.
[3] Idem.
[4] Crítica e Clínica, p.40.

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