segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Educação, Linguagem & Pensamento


Mulher e Pensamento/Rose Marie Silva Haddad



Ana Maria Haddad Baptista é mestra e doutora em Comunicação e Semiótica. Pós-doutora em História da Ciência pela PUC/SP.     professoraanahb@gmail.com



Resumo

 Linguagem é todo e qualquer sistema de signos que servem à comunicação.  Depreende-se disso que existem muitas formas de linguagem. As sociedades da contemporaneidade, em diversos graus, querem fazer crer que a linguagem verbal, ou seja, a língua escrita, seja a forma mais importante de comunicação .Todavia, sabe-se, tal afirmação está carregada de uma carga ideológica que visa apenas a exclusão daqueles a quem não foi dada a oportunidade de escolaridade que possibilitasse a aprendizagem da língua.
Na verdade, não há hierarquia entre as diversas linguagens produzidas pelo homem. A linguagem musical, pictórica, teatral e outras são importantes. Nessa medida,  linguagens não verbais também são tão importantes quanto a verbal.
Este texto deverá refletir algumas perspectivas que julgamos importantes para se pensar questões de educação, linguagem e pensamento, assim como o papel da literatura na construção de conceitos a respeito da língua.



Introdução


Desde a Antiguidade as questões relacionadas com a linguagem intrigaram a humanidade. Uma das discussões mais importantes de que se tem registro, a respeito do assunto, está contida na grande obra clássica do Ocidente, ou seja, no Crátilo, Platão. Como era produzida a linguagem? Qual a origem dos nomes? Haveria uma semelhança entre os nomes e as coisas? Os nomes seriam meramente convencionais? Estas e outras questões já foram colocadas pelo homem há muitas centenas de anos.
De acordo com Platão, via Sócrates (2001:49) “as coisas devem ser nomeadas como lhes pertence por natureza serem nomeadas e por meio do que lhe devem sê-lo, e não como nós queremos; e assim, faremos e nomearemos melhor, de outra maneira não.” De  acordo com a cosmologia da Antiguidade Grega os nomes das coisas estariam contidos em sua própria natureza ou, na verdade, não houve escolha, e haveria convencionalidade na nomeação.  Lembremos que nesta etapa da humanidade havia um conceito de sujeito e de subjetividade bastante distinta do conceito atual. Ressalte-se que a discussão a respeito da arbitrariedade dos signos, ou não,  já estava presente em nossa cultura há muito tempo.
 Toda e qualquer linguagem é representativa, ou seja, ela não é o objeto que busca representar, com isso sempre haverá uma espécie de débito entre a linguagem e o objeto representado. A completude total de uma representação é um dos grandes limites de toda e qualquer linguagem. Pode-se afirmar que todas as linguagens possuem limites e possibilidades.

a.Língua e Linguagens

 As linguagens são processos externos ao homem. As linguagens são adquiridas de fora para dentro do homem. Processos exteriores ao homem que ao longo de sua existência poderão ou não interiorizá-los. De acordo com Santaella: “Já na aurora de seu processo evolutivo a espécie humana deu início à construção de sistemas sígnicos, que não são outra coisa senão prolongamentos, expansões cada vez mais complexas da habilidade comunicativa possibilitada pela língua.” (2007:202).
 As linguagens são processos de materialidade. Possuem dimensões de fisicalidade. Por exemplo: uma palavra. Há um aspecto de significado que seria o conceito do objeto e possui o significante que seria sua fisicalidade, isto é, o aspecto gráfico e sonoro. Modernamente as linguagens são divididas em verbais e não verbais.
 A linguagem verbal, por exemplo, tende a ser muito mais abstrata do que a linguagem visual. A maioria das linguagens verbais representam os sons. São as línguas fonéticas. Logo, num primeiro momento, o objeto pouco tem a ver com sua representação. Como um contraponto em relação às línguas de cunho fonética, há a língua chinesa. Esta língua representa, em grande parte, os objetos. Pode-se afirmar que há uma espécie de semelhança entre o objeto e sua representação. A língua japonesa possui, também, muitos elementos em comum com a língua chinesa. Orientais e ocidentais habitam esferas e dimensões de linguagens bastante distintas,  (KATO, 2012: 34)
Não há hierarquia entre as linguagens e, muito menos, entre as línguas. Não há superioridade linguística. Uma sociedade tecnicamente avançada não garante nada em termos linguísticos, assim como uma sociedade que possui poucos avanços tecnológicos pode, perfeitamente, possuir uma estrutura linguística altamente complexa. Eis uma herança bastante significativa, conforme é sabido,  que o Estruturalismo deixa para as sociedades.
Todas as linguagens se transformam. Não há regras, normas e formas fixas. As transformações que dão movimento às linguagens são absolutamente necessárias, visto que responsáveis por novas formas de se perceber o mundo. Novas formas de pensar e que buscam camadas sígnicas que atenuem os possíveis hiatos entre o objeto e sua representação. “A língua é o espelho da existência, mas também da alma”.  (ROSA, 1994: 105)
No Brasil houve, em especial, a partir da Semana de Arte Moderna (1922) uma grande preocupação dos escritores brasileiros em se criar uma literatura arejada e, consequentemente, uma língua portuguesa mais próxima dos brasileiros. A consciência, mais aguda, de que o Brasil possui todas as possibilidades de ter uma língua portuguesa com variedades singulares, visto, por exemplo, a sua formação étnica.   “Nestes quatrocentos anos de colonização literária recebemos a influência de muitos países. Sempre tentamos reproduzir com todas as minudências a língua, as ideias, a vida de outras terras. Não sei donde vem esse medo que temos de sermos nós mesmos. Queremos que nos tomem por outros.” (RAMOS, 2012: 168)
Não foi, naturalmente, somente Graciliano Ramos quem percebeu agudamente a necessidade do Brasil ser mais ele mesmo. Grandes escritores após o Movimento Modernista sentiram a mesma necessidade. Guimarães Rosa, por exemplo, em toda a sua obra foi um dos escritores que mais buscou a identidade de uma língua portuguesa brasileira. Que realmente exprimisse nossa alma. Nossos anseios. Nossos sonhos. Nossa forma tão singular de ser. De existir.


b. Linguagem e Pensamento


Ao falarmos de pensamento e linguagem uma primeira questão se coloca, a nosso ver, de extrema importância: todas as evidências, em diversos graus, indicam que o ser humano pode pensar somente a partir de uma linguagem. Contudo, lembramos, uma vez mais, que todas as linguagens possibilitam o pensamento. Seria muito discriminatório e pretensioso afirmarmos que  somente a linguagem verbal daria acesso ao ato efetivo de se pensar. Há vários casos de pessoas que pensaram por intermédio de imagens, como por exemplo, Leonardo da Vinci. Ele pensava, predominantemente, por imagens. Einstein nunca escondeu que suas ideias e grandes conceitos vinham por meio de imagens. Enfim, tudo indica que homem pensa somente a partir de uma linguagem, contudo, não necessariamente a partir da língua.
A linguagem é um eterno diálogo subjetivo mas que exige um repertório. O pensamento está associado ao pensamento. Não há como pensar sem linguagem. A linguagem exterioriza, materializa sentimentos, ideias e conceitos. Somente a partir de um repertório adquirido, de fora para dentro, é possível, por exemplo, a criação de novas palavras. Consequentemente,  de novos conceitos. Nomear o mundo. Nomear o ser. Nomear a existência. Novas formas de pertencimento e de dialogicidade.  (FREIRE, 2011: 97. A liberdade de expressão e a posse de si somente poderá ocorrer a partir do momento em que  o homem tenha domínio de linguagem.
Um outro ponto importante a ser considerado: cada linguagem exige de nós solicitações cognitivas diferentes. Ao vermos a figura de um elefante pouco precisamos imaginar para que nosso pensamento se ligue imediatamente ao conceito de que estamos frente a um animal enorme, assim como de frente a características relacionadas a um animal de grande porte. Quando lemos a palavra elefante somos mais solicitados. Precisamos imaginar um elefante. Um filme, uma música, um teatro são linguagens  que exigem de nós posturas e processsos interpretativos diferentes.
Contudo, um fato é inegável. A língua é a linguagem que, socialmente, predomina. De acordo com Hjelmslev:

Antes mesmo do primeiro despertar de nossa consciência, as palavras já ressoavam à nossa volta, prontas para envolver os primeiros germes frágeis de nosso pensamento e a nos acompanhar inseparavelmente através da vida, desde as mais humildes ocupações da vida quotidiana aos momentos mais sublimes e mais íntimos dos quais a vida de todos os dias retira, graças às lembranças encarnadas pela linguagem, força e calor. A linguagem não é um simples acompanhante, mas sim um fio profundamente tecido na trama do pensamento; para o indivíduo, ela é o tesouro da memória e a consciência vigilante transmitida de pai para filho. Para o bem e para o mal, a fala é a marca da personalidade, da terra natal e da nação, o título de nobreza da humanidade. (2009:01)


A língua é a linguagem que predomina em todas as esferas sociais. Mais do que nunca domínio de língua é, de maneira incontestável, domínio de mundo, de modelos e outros elementos tão necessários (inclusive como forma de sobrevivência) à contemporaneidade. Língua é o domínio da palavra. Pode ser, sabe-se, um grande instrumento de libertação, mas também de opressão. Lembremos, o grande exemplo de literatura, colocado por Graciliano Ramos: o personagem Fabiano de Vidas Secas. Fabiano é a grande imagem do oprimido pela palavra. Pelo pensamento vazio visto não ter linguagem para poder se expressar. Fabiano é a figura do homem sem defesa porque não sabe falar como aqueles que lhe oprimem e o colocam na cadeia.
Nas palavras de Freire:

Quando tentamos um adentramento no diálogo como fenômeno humano, se nos revela algo que poderemos dizer ser ele mesmo: a palavra . Mas, ao encontramos a palavra, na análise do diálogo, com algo mais do que um meio para que ele se faça, se nos impõe buscar, também , seus elementos constitutivos.
Esta busca nos leva a surpreender, nela, duas dimensões: ação e   reflexão  , de tal forma solidárias, em uma  interação tão radical que, sacrificada, ainda que em parte, uma delas, se ressente, imediatamente, a outra. Não há palavra verdadeira que não seja práxis . Daí dizer que a palavra verdadeira seja transformar o mundo. (2005:80)

A afirmação de Paulo Freire é essencial, sob nosso ponto de vista, para se pensar muitas coisas importantes a respeito da palavra: uma delas, evidentemente, é em relação ao espaço escolar em que se dá a palavra e como esta se configura. A escola, de um modo geral, pouco distingue pontos fundamentais a respeito de língua. A primeira delas: considerar com  respeito o repertório trazido pelo aluno e o outro ponto: mostrar a norma culta, adequada e necessária para os estudantes. Muitos educadores confundem respeito ao repertório linguístico do educando com permissividade. A norma culta e socialmente aceita existe e deve ser cumprida e exercitada, caso contrário, o nosso educando será excluído do sistema. Isso significa, na esteira de Paulo Freire, realmente, dar a palavra. A palavra em sua práxis tem um significado muito amplo. O educador deve colocar em prática o uso da palavra e não somente apregoá-la. Tal fato envolve uma série de macanismos. O principal deles: dar o espaço necessário para o educando. Dar a  ele espaço de  colocar suas ideias, seus conceitos, enfim, a sua vivência.

Nas palavras de Freire:

A existência, porque humana, não pode ser muda, silenciosa, nem tampouco pode nutrir-se de falsas palavras, mas de palavras verdadeiras, com que os homens transformam o mundo. Existir, humanamente é pronunciar o mundo, é modificá-lo. O mundo pronunciado, por sua vez, se volta problematizado aos sujeitos pronunciantes , a exigir dele novo pronunciar.
Não é no silêncio que os homens se fazem, mas na palavra, no trabalho, na ação-reflexão.
Mas, se dizer a palavra verdadeira que é trabalho, que é práxis, é transformar o mundo, dizer a palavra não é privilégio de alguns homens, mas direito de todos os homens.  (2005:90)


Quem pode dar a palavra? Somente aquele que a possui. Aquele que, diferentemente, de Fabiano, Vidas Secas, a domina, de fato. Contudo, mesmo tendo a palavra se nnao houver o espaço para que ela se legitime, todo o processo cai num grande vazio. Cai no silêncio sem remédio. A existência humana somente pode se completar, em grande parte, por meio da palavra. Palavra legitimada. Exercida. Falsas palavras podem ser desmascaradas, desveladas a partir de um domínio mais amplo da linguagem.


c. Linguagem literária e pensamento

Diferentemente do que a maioria, de senso comum, afirma, a Literatura não é um processo meramente subjetivo. A Literatura não existe apenas como uma mera válvula de escape que leve o homem a sonhar. Ou: distração para uma mente cansada. A literatura de Graciliano Ramos, Clarice Lispector, Machado de Assis, Guimarães Rosa e de muitos outros são a prova concreta de que Literatura possui algo mais. Foge aos objetivos deste texto explicitarmos as diferentes dimensões cognitivas em que atuam a Literatura.
Vamos à nossa proposta: em que medida a linguagem literária está envolvida diretamente com o pensamento? A Literatura é um dos únicos caminhos possíveis para aproximar significado do significante. Em outras palavras: um dos únicos atalhos pelos quais o objeto e sua representação ficam mais próximos. Quanto mais a linguagem for carregada pela objetividade, maior será sua distância daquilo que se pretende enunciar. Eis uma grande questão, nada original, mas que merece um pouco mais de atenção.
Nas palavras de Foucault:

Crê-se atingir a essência mesma da literatura, interrogando-a não mais ao nível do que ela diz, mas na sua forma significante: fazendo-o permanece-se no estatuto clássico da linguagem. Na idade moderna, a literatura é o que compensa (e não o que confirma) o funcionamento significativo da linguagem. Através dela o ser da linguagem brilha de novo nos limites da cultura ocidental – e em seu coração – pois ele é, desde o século XVI, aquilo que é mais estranho; porém, desde esse mesmo século XVI, ele está no centro do que ela recobriu. (…) A partir do século XIX, a literatura repõe  à luz a linguagem no seu ser : não, porém, tal como ela aparecia ainda no final do Renascimento. Porque agora não há mais aquela palavra primeira, absolutamente inicial, pela qual se achava fundado e limitado o movimento infinito do discurso; doravante a linguagem vai crescer sem começo, sem termo e sem promessa. É o percurso desse espaço vão e fundamental que traça, dia a dia, o texto da literatura. (1990: 60)


A literatura, em especial, após o século XIX, quando a abstração particularmente nas ciências predomina, inicia um movimento, sem precedentes na história da humanidade, de aproximar o significado do significante, ou seja, de tornar o objeto e sua representação cada vez mais perto do pensamento, mais próxima daquilo que intenta representar. Dar voz à literatura, é dar voz e vez à palavra. Eis um dos grandes motivos pelos quais a literatura deve ser inseparável do processo educacional em todos os graus possíveis. De acordo com Mia Couto: “Entender a origem e a história das palavras faz-nos ser mais donos de um idioma que é nosso e que não apenas dá voz ao pensamento como já é próprio do pensamento. Ao sermos donos das palavras somos mais donos da nossa existência.” (2011: 97) Cremos que os educadores, de todas as esferas do conhecimento, devem ter a total consciência de que parte das grandes mudanças e transformações partem da palavra. E seu total conhecimento, de fato, se dá pela literatura. Aquela literatura que realmente dá voz a todos, como por exemplo, a literatura de Graciliano Ramos, Lima Barreto, Guimarães Rosa, Mia Couto. Estas literaturas, como é de conhecimento geral, são consagradas não por histórias que contam. Ou apenas pelos dramas que colocam. Mas, fundamentalmente, pela forma como contam. Refletindo a língua, pensando o pensamento, pensando os conceitos, pensando a linguagem como um todo.


Considerações Finais &  Fundamentais


O pensamento necessita de um suporte que o materialize. Não há pensamento sem linguagem. Cada forma de linguagem estrutura de forma distinta  os pensares. As línguas fonéticas como o português, inglês, francês e a maioria das línguas ocidentais são fonéticas, ou seja, extremamente abstratas e como tais exigem um grande grau  de maturação para serem apreendidas. Nenhum educador poderia jogar tal processo ao esquecimento. As línguas silábicas e, particularmente, as línguas ideogramáticas estão muito mais próximas do objeto que buscam representar. Depreende-se disso que estão mais próximas das formulações de pensamento. Além disso, lembremos Guimarães Rosa: “Cada língua guarda em si uma verdade escondida”. (1994:51)
A aprendizagem de uma língua, efetivamente, exige dos educadores uma postura de completo respeito ao repertório do aluno, visto que é fundamental para a interiorização  de uma língua o repertório, em todos os níveis, trazido pelo aluno.
Um dos únicos caminhos possíveis para a apreensão da língua é por meio da literatura, visto ser o papel primordial da literatura aproximar o objeto de sua representanção. Somente a literatura, todas as evidências indicam,  nos conduz aos caminhos (mesmo que bifurcados), de fato, de uma representação mais próxima daquilo que pensamos.
A literatura verdadeira dispensa a gramática ensinada de maneira sistemática. Bem dizia Guimarães Rosa: “(…) não me submeto à tirania da gramática e dos dicionários dos outros. A gramática e a chamada filologia, ciência linguística, forma inventadas pelos inimigos da poesia.” (1994:34) A lógica da gramática estritamente gramaticosa subtrai os principais espaços de criatividade e inventividade possibilitadas pelo pensamento e pela linguagem. A grande Literatura indica, por diversas vias, o quanto é autoritário e opressor falar por alguém. Nessa medida, lembremos: dar a palavra! Nada melhor do que dar a palavra a quem merece, de fato. Eis um dos maiores desafios da Educação em todos os tempos.



REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:


COUTO, Mia. E se Obama fosse africano? São Paulo,Cia das Letras: 2011.
DELEUZE, Gilles. Critique et Clinique. Paris, Les Éditions de Minuit: 1993.
______________. Lógica do Sentido. 4a. ed. São Paulo, Perspectiva: 1998.
______________. Conversações. Tradução de Peter Pál Pelbart. São Paulo, Editora 34: 1992.
FOUCAULT, Michel. Les mots et les choses. Paris, Éditions Gallimard: 1966.
_________________. As palavras e as coisas. Tradução de Salma Tannus Muchail. 5 ed. São Paulo, Martins Fontes: 1990.
GRANET, Marcel. O pensamento Chinês. Tradução de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro, Contraponto: 1997.
FREIRE, Paulo. Educação como prática da liberdade. 14 ed. Rio de Janeiro, Paz e Terra: 2011.
_____________. Pedagogia do Oprimido. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 2005.
HJELMSLEV, Louis. Prolegômenos a uma teoria da linguagem. Tradução de J. Teixeira Coelho Netto. São Paulo, Perspectiva: 2009.
____________. Pedagogia do Oprimido. Rio de Janeiro, Paz e Terra: 2005.
KATO, Shuichi. Tempo e Espaço na Cultura Japonesa. Tradução de Neide Nagae e Fernando Chamas. São Paulo, Editora Estação Liberdade: 2012.
PLATÃO. Crátilo. Tradução de José Andrade dos Santos. Lisboa, Instituto Piaget: 1997.
SANTAELLA, Lucia. Linguagens líquidas na era da mobilidade. São Paulo, Editora Paulus: 2007.
RAMOS, Graciliano. Garranchos: textos inéditos de Graciliano Ramos. Org. de Thiago Mio Salla. Rio de Janeiro, Record Ltda: 2012.
________________. Vidas Secas. Rio de Janeiro, Record Ltda: 1998.
RICOEUR, Paul. O conflito das interpretações. Tradução de M.F. Sá Correia. Porto, RÉS-Editora, Ltda: [s.d.].
ROSA, Guimarães Rosa. Ficção completa, em dois volumes. Rio de Janeiro, Nova Aguilar: 1994.
SARAMAGO, José. Cadernos de Lanzarote II. São Paulo, Cia das Letras: 1999.


 Obs: Este texto já foi publicado,  no mês de novembro de 2013, em Anais Completos de Congresso.




sábado, 7 de dezembro de 2013

Da Interpretação VII: O Universo do Receptor e os Limites da Interpretação


Ana Maria Haddad Baptista




Rose Marie Silva Haddad/Flores Azuis


Interpretar de forma coerente e entender um texto envolve, como vimos até agora, alguns procedimentos e processos. Um fator que interfere, direta ou indiretamente, no ato interpretativo é o universo do receptor.
Falar acerca do universo do receptor é lembrar que cada um de nós possui um repertório único. Em muitos aspectos: incompartilhável. Lembremos que nosso universo é constituído pelas nossas experiências vividas, sentidas. Pelas nossas leituras que incluem toda e qualquer forma de linguagem. Tudo isso e muito mais configura, de certa forma, nosso universo. Logo, as possíveis leituras que poderemos fazer ao interpretar todo e qualquer tipo de texto poderão ser diferentes e despertar diferentes reações desde que não esbarrem apenas em nossas famosas projeções subjetivas e, muitas vezes,  momentâneas. Todavia, tal fato não nos autoriza a interpretar o que quisermos como quisermos. Tal fato não nos autoriza a afirmar que cada um tem sua própria verdade. Toda interpretação envolve limites... se pensarmos no que já foi exposto e  explicamos anteriormente.
Lembremos, uma vez mais, dos elementos de materialidade de um texto: temos acima um quadro com flores azuis. Não podemos afirmar que as flores que vemos são vermelhas. Não podemos inventar que a artista estava pensando em casas amarelas. O que vemos, objetivamente, são flores azuis. Em quê a artista estava pensando quando pintou o quadro de flores azuis? Somente ela poderia nos dizer. Ela pode ter sonhado com flores amarelas e ter pintado flores azuis. Ela pode ter se lembrado de um jardim com flores...enfim...o universo da pintora é inacessível, no momento da leitura, a todos nós.
Sabe-se que nenhum texto é lido sem uma certa dependência da experiência que o receptor possui de outros textos. E finalmente devemos concluir que o ato  interpretativo está sujeito a inúmeros fatores. Naturalmente que buscamos comentar apenas os principais. Como já dissemos anteriormente: quando olhamos para o mundo já o olhamos de forma interpretativa porque carregamos no olhar nossos valores, nossa experiência, nossa memória, enfim, elementos que nos são, de certa forma, indissociáveis.
A linguagem, por sua vez, é uma cadeia sígnica. A cada momento que estivermos dando um novo significado para qualquer coisa que seja, o novo significado, não importa a linguagem, será por intermédio de novos signos. Estamos condenados a uma relação indireta com o mundo, entre outras coisas, porque somos seres mediados pela linguagem, não importa qual seja ela.
No entanto, por tudo que foi verificado neste texto jamais estaremos autorizados a dar significados particulares e subjetivos a qualquer texto que seja. Nessa medida,  estaríamos ferindo princípios universais e referenciais que já estão estabelecidos.  É necessário que se respeitem certas regras mínimas. São os limites do intérprete.










sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Da Interpretação VI: A intencionalidade do autor/texto

Ana Maria Haddad Baptista



Espelho Mágico/ Rose Marie Silva Haddad


Sempre que nos propusermos a escrever um texto... parece-nos tácito de que existe uma intencionalidade. Quem escreveria sem qualquer tipo de objetivo? Sem querer atingir alguém ou dizer alguma coisa para alguém?
No caso de um texto científico existe uma intenção do autor? Naturalmente que existe. A intencionalidade do autor sempre estará presente em todo e qualquer tipo de texto. Escrevemos para alguém. Nem que seja num diário. Mesmo que façamos questão de que ele não seja lido por alguma pessoa. Estou, no mínimo, escrevendo para mim e tal argumento já basta para saber que todo texto, consciente ou inconscientemente, possui uma intenção. Será que um escritor escreveria somente para ele no caso de um texto literário? Tal proposta não parece razoável!
Conforme Umberto Eco, em sua obra Interpretação e Superinterpretação (2005, p.92):

Quando falo com um amigo, estou interessado em detectar a intenção da pessoa que fala; e quando recebo uma carta de um amigo estou interessado em entender o que o autor queria dizer. (...)quando um texto é produzido não para um único destinatário, mas para uma comunidade de leitores, o/a autor  sabe que será interpretado/a não segundo suas intenções, mas de acordo com uma complexa estratégia de interações que também envolve os leitores, ao lado de sua competência na linguagem enquanto tesouro social. Por tesouro social entendo não apenas uma determinada língua enquanto conjunto de regras gramaticais, mas também toda a enciclopédia que as realizações daquela língua implementaram, ou seja, as convenções culturais que uma língua produziu e a própria história das interpretações anteriores de muitos textos, compreendendo o texto que o leitor está lendo.
O ato de ler deve evidentemente considerar todos esses elementos, embora seja improvável que um leitor sozinho possa dominar todos eles. Assim, o próprio ato da leitura é uma transação difícil entre a competência do leitor (o conhecimento de mundo do leitor) e o tipo de competência que um dado texto postula a fim de ser lido de forma econômica.

Depreende-se do fragmento de Umberto Eco que, indiretamente, os dados além do texto são fundamentais para uma interpretação de texto mais coerente. O autor italiano, na mesma obra obra citada, considera, como muitos estudiosos de interpretação, que quando o autor de um texto ainda está vivo, via de regra, quando interpelado a respeito de seus textos, nota-se claramente o quanto alguns leitores fazem uma leitura equivocada a respeito do que interpretaram  se comparar com o que, realmente, o autor teve intenção de dizer. Tal fato não significa que uma “boa” interpretação deva estar centrada unicamente nas reais intenções do autor/texto. Evidente que quando um autor publica um texto o leitor possui certas liberdades que devem ser levadas em consideração, ou seja, muitas vezes o próprio autor não consegue dar conta de todas as possibilidades do alcance de seu texto.
Vale a pena recordar o bom e velho Sartre em sua obra Situações I (2005:37):

Um romance é um espelho: todo mundo o diz. Mas o que é ler um romance? Creio que seja saltar para dentro do espelho. De repente nos encontramos ali, do outro lado, em meio a gente e objetos que nos parecem familiares. Mas é apenas uma aparência, pois na verdade jamais os tínhamos visto. E as coisas do nosso mundo, por sua vez, estão lá fora e se tornam reflexos. Fechamos o livro, transpomos a beirada do espelho e reentramos neste honesto mundo daqui: reencontramos os edifícios, os jardins, as pessoas que nada nos dizem; o espelho, que se recompôs logo atrás, reflete-os placidamente. Depois disso juraríamos que a arte é um reflexo; os mais maliciosos irão até falar em espelhos deformantes.

Ler. Interpretar. A  busca de um sentido. A busca incansável e, quase, inalcançável de preenchimentos das incompletudes em diversos graus e sentidos para a vida!
           

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Da Interpretação V: Elementos extratextuais do ato interpretativo

Ana Maria Haddad Baptista

Lembremos: estamos sempre a interpretar, em maior ou menor escala, tudo o que nos rodeia. Vejamos um  poema:

Heráclito

O segundo crepúsculo.
A noite que afunda no sonho.
A purificação e o esquecimento.
O primeiro crepúsculo.
A manhã que foi a Alba.
O dia que foi a manhã.
O dia inumerável que será a tarde gasta.
O segundo crepúsculo.
Esse outro hábito do tempo, a noite.
A purificação e o esquecimento.
O primeiro crepúsculo...
A Alba sigilosa  e na Alba
O soçobro do grego.
Que trama é esta?
Do será, do é e do foi?
Que rio é este
Pelo qual corre o Ganges?
Que rio é este cuja nascente é inconcebível?
Que rio é este
Que arrasta espada e mitologias?
É inútil que durma.
Corre no sonho, no deserto, num sótão.
O rio me arrebata e eu sou esse rio.
Fui feito de uma matéria desagregável, de misterioso tempo.
Talvez o manancial esteja em mim.
Talvez de minha sombra
Surjam, fatais e ilusórios, os dias.

Jorge Luis Borges
  
Num primeiro nível de leitura, ou seja, o proposto por nós para uma interpretação, sabe-se que o autor está falando do tempo. De um tempo que flui... que  nos arrebata... como declara Borges. Entretanto, a começar pelo título, Heráclito. Se o receptor não souber que Heráclito foi quem praticamente pensou, primeiro,  na ideia da mobilidade e do movimento, do ser que flui, que acreditava na junção dos contrários e outros aspectos das teorias do filósofo de Éfeso, a interpretação ficará totalmente comprometida. Ou seja, será uma interpretação que não atinge a grandiosidade dos elementos que o autor argentino pretende destacar que é justamente a questão do tempo que flui. Somos seres que fluem. Se  não fosse tal fato estaríamos condenados a viver num eterno presente, conforme  comprovam tantas outras áreas do conhecimento.
Além do mais, sabe-se, tudo o que está ao nosso redor flui. A realidade é, tudo indica, algo  inapreensível, o que não quer dizer que não possamos captá-la sob alguns ângulos.
Nessa medida, de acordo com o exposto, os elementos extratextuais para a interpretação são fundamentais.
Sabe-se, e não iremos aprofundar tal ponto, que muitos estudiosos da linguagem pretenderam, especialmente, os formalistas, buscar a autonomia total de um texto. Ou seja, a partir do próprio texto extrair toda e qualquer informação em busca de uma pretensa objetividade textual, partindo do pressuposto de que a linguagem verbal, antes de qualquer coisa, é uma estrutura lingüística e não foram poucos os argumentos que usaram para tal posicionamento.
Talvez o mais forte seja o apelo para  o fato de que as línguas ocidentais não  sejam estruturadas  na analogia e na semelhança (como a língua chinesa antiga).
Conforme é sabido a língua é uma entidade que está fora do homem. Ora, ninguém conhece uma pessoa que tenha nascido falando. Imaginem um bebê que ao nascer já conversasse, por exemplo, com o médico. Portanto, é de consenso que a língua é uma entidade material e sua estrutura está fora de nós. A nossa língua é formada por entidades mínimas denominadas fonemas. Exemplo: a palavra carneiro. Vamos decompô-la : c-a-r-n-e-i-r-o, em entidades mínimas, tais entidades em si mesmas não possuem nenhum significado, tanto é que podem formar outras expressões com sentido completamente diferente. Por exemplo: carne. Usei de fonemas contidos em carneiro e formei uma expressão com outro significado.
Enfim, os formalistas e alguns hermeneutas buscaram uma objetividade e autonomia a partir do próprio texto, desconsiderando pontos que veremos a seguir.

Vejamos o seguinte enunciado:

PICASSO GANHA 20 CAVALOS, POR MAIS R$ 1 MIL   
(O Estado de S. Paulo)

Caso não tivéssemos alguns conhecimentos prévios como poderíamos estar interpretando tal enunciado?
Que o grande artista Picasso ganhou 20 cavalos por mil reais? E daí teríamos uma grande rede de leituras possíveis visto que vinte cavalos por mil reais é um tanto barato. Poderíamos imaginar que os cavalos devem estar praticamente destruídos para estarem sendo vendidos por um preço tão acessível.
Entretanto, sabe-se,  o pintor Picasso já morreu, aliás no ano de 1973. Como ele poderia ter ganho vinte cavalos?
Logo, os conhecimentos extratextuais são fundamentais para toda e qualquer interpretação. Sabe-se que existe um carro bastante conhecido da Citroen que se chama Picasso. Tais dados nos autoriza a pensar que só pode ser o carro que ganha cavalos, termo bastante usado para denominar a potência de um carro.

Vejamos um outro texto:

“Sim, viagens no tempo são possíveis. E a convicção com que os pesquisadores se referem a elas chega a espantar. ‘Não há dúvidas de que é possível  construir uma máquina do tempo capaz de nos levar ao futuro’ , diz o britânico Paul Davies, cientista mundialmente famoso por seu trabalho com divulgação científica. ‘Viajar para o futuro é hoje uma questão de engenharia. Depende de investir altas somas para desenvolver a tecnologia necessária’, garante o físico americano J.Richard Gott, um dos maiores especialistas dessa área. No caso de viagens ao passado, porém, a convicção é substituída por um acirrado debate que envolve nomes do calibre de Stephen Hawking, o maior físico vivo e ferrenho adversário da idéia.
A possibilidade de se viajar no tempo é conhecida desde o início do século 20. Mas durante décadas o tema foi discretamente posto de lado. Os cientistas se sentiam constrangidos em mostrar interesse por um tema explorado até a exaustão pela ficção científica. Mas a partir dos anos de 1980 uma nova geração começou a analisar seriamente o assunto, atraída pela possibilidade de realizar novas descobertas. O resultado é que hoje já existem várias idéias sobre como realizar o tão sonhado ‘salto temporal’.” (Revista Galileo, 2009)

Em princípio  não podemos, no sentido mais literal, darmos um salto para o futuro e muito menos para o passado. Contudo, o salto temporal  a que se refere o artigo da revista em questão tem como princípio a relatividade de Einstein e outros elementos da física moderna que tornariam possível um salto para o futuro. Sabe-se, inclusive, que se fosse possível uma nave espacial chegar a uma velocidade próxima à velocidade da luz, os relógios retardariam e o viajante chegaria mais ‘novo’ ao seu destino em relação aos habitantes da Terra, como comprova, teoricamente, o famoso paradoxo dos gêmeos.
Entretanto, para se compreender o texto em questão seria preciso ter muito mais conhecimento a respeito da física moderna para que pudéssemos entendê-lo melhor. Mais próximo de uma verdade...Cabe aqui recordarmos que a preocupação com a verdade, nem de longe foi somente de pensadores mais voltados para a área científica. Ouçamos Fernando Pessoa:

Ah, quem escreverá a história do que poderia ter sido?
Será essa, se alguém a escrever,
A verdadeira história da humanidade.

O que há é só o mundo verdadeiro, não é nós, só o mundo;
O que não há somos nós, e a verdade está aí.

Sou quem falhei ser.
Somos todos quem nos supusemos.
A nossa realidade é o que não conseguimos nunca.

Que é daquela nossa verdade – o sonho à janela da infância?
Que é daquela nossa certeza – o propósito à mesa de depois?

Medito, a cabeça curvada contra as mãos sobrepostas
Sobre o parapeito alto da janela de sacada,
Sentado de lado numa cadeira, depois do jantar.

Que é da minha realidade, que só tenho a vida?
Que é de mim, que sou só quem existo?

Evidentemente que há inúmeras leituras que podemos fazer do poema em questão. Entretanto, uma possível é o questionamento da verdade e da realidade. Podemos destacar: ‘somos todos quem nos supusemos’. Quem somos nós para nós mesmos? Aquilo que supusemos... É uma condenação humana.
Depreeende-se do poema de Fernando Pessoa a impossibilidade de uma ‘verdade total’ a respeito de nós mesmos, como acerca daquilo que nos rodeia.
Quando nos propomos a interpretar, claro que subjaz a intenção de uma verdade. Sejamos menos pretensiosos... chegarmos próximo a uma verdade.


quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Da Interpretação IV: Princípio de Referencialidade


Ana Maria Haddad Baptista

Ao interpretarmos um texto, como já dissemos em textos anteriores, requer alguns aspectos e procedimentos para que possamos nos aproximar de forma mais exata daquilo que o enunciado está comunicando.
Nessa medida, selecionamos quatro aspectos básicos que serão analisados ao considerarmos a interpretação:

1. Princípio da referencialidade, ou seja, qual o grau de informação do texto a ser interpretado? Quais são seus referenciais mais objetivos e explícitos?

2 . Elementos que vão além do texto. Quais são os elementos, além do texto, que interferem na interpretação?

3. A intencionalidade do autor e do texto.

4. O universo do receptor.  Limites e possibilidades do intérprete.

No texto de hoje veremos apenas o primeiro princípio:

1. Princípio de referencialidade

Interpretar é, essencialmente, dar significado. Quando olhamos para o mundo buscamos nele dar um sentido, ler um sentido. Olhamos para o Universo, em qualquer situação, buscando um sentido, uma leitura.
Considero, em termos didáticos, para facilitar a qualquer pessoa que tenha certas dificuldades em interpretar textos, que, primeiramente, deve-se considerar a referencialidade do texto, ou seja, sua carga explícita de informação. Todo tipo de texto carrega uma carga de informações, seja ele impresso ou não. Tal carga, em primeiro lugar, deve ser respeitada e analisada.
Quando leio:
Ontem vi um pinguim, já está convencionado de alguma forma, que vi um animalzinho de pequenas asas, que conforme o tipo é preto e branco. Tal fato é inegável. Não posso ler, porque assim quero, Ontem vi uma borboleta. Entretanto, aqui vai uma pequena confusão, na maioria das vezes, por falta de uma nomenclatura do senso comum: as associações subjetivas que podemos fazer ao ler um enunciado são infinitas. Sabe-se: ao ler um enunciado posso naquele momento estar associando a qualquer coisa que eu queira ou que me venha à memória. Ao ler o enunciado Ontem vi um pinguim posso lembrar do pinguim que minha avó tinha sobre a geladeira. Ou posso lembrar de um documentário a respeito da Antártica que vi outro dia na televisão. Enfim posso me lembrar de um certo Timão cujas cores mais representativas são preto e branco. E o que é pior: além das ASSOCIAÇÕES que posso estabelecer serem de caráter pessoal, subjetivo e instransferível pode haver mudanças a cada milésimo de segundo. Lembremos:  somos seres que fluem, nunca somos mais os mesmos, recordemos de uma das maiores verdades que alguém já pronunciou: “Ninguém se banha duas vezes no mesmo rio”. Amanhã ao ler o mesmo enunciado posso fazer associações completamente diferentes, ou mesmo daqui a dez minutos. O que caracteriza a irrepetibilidade de cada milésimo de segundo que vivemos. Tudo o que estamos colocando são pressupostos básicos e condições para qualquer ato interpretativo.
Não há como escapar dessa situação, ou seja, QUALQUER ENUNCIADO PODE NOS LEVAR A ASSOCIAÇÕES SUBJETIVAS, seja o enunciado literário ou não. E é aí que, muitas vezes, existem enganos muito sérios.As regras que estamos estabelecendo são as mesmas para qualquer tipo de enunciado. Literário ou não.
 Vejam: posso ler uma fórmula de química e me colocar a chorar, principalmente, se eu me lembrar de meus tempos de colegial e das dificuldades que tinha para decorar aquela ‘linda’ tabela periódica. Ora, qualquer tipo de enunciado, em princípio, pode me levar às lágrimas, não necessariamente um texto literário ou um lindo poema!
Evidentemente, um texto conceitual, informativo ou científico possui uma perspectiva diferente de um texto literário, no entanto, tal fato não invalida nosso enfoque: a primeira coisa a ser considerada em qualquer tipo de texto é a sua referencialidade.

Conforme nos  alerta o grande pensador Almir de Andrade:

“Na sua plenitude, o conhecimento é esforço de ajustamento, não apenas entre sujeito e objeto (...) mas entre duas objetividades, a objetividade da coisa e a objetividade do sujeito. A expressão a ‘objetividade do sujeito’, se a soubermos empregar devidamente, nos dará não só o verdadeiro sentido do progresso da filosofia  e da ciência, que se esforçam por conhecer o mundo real tal como é, senão que a meta que devemos mirar na própria vida individual, sempre que pretendemos orientar-nos pela experiência do mundo e ajustar a subjetividade do eu a essa experiência, a fim de que possa o eu expandir-se sem prejudicá-la, nem por ela prejudicado nas suas expansões. A objetividade do sujeito representaria, historicamente, secular conquista da experiência humana; e, individualmente, o perene esforço da autodisciplina do espírito, através do qual aprendemos a distinguir as essências subjetivas, que estão em nós, das essências objetivas, que estão nas coisas. Só quando fazemos nitidamente essa distinção é que nos habituamos a viver a nossa própria vida subjetiva sem permitir-lhe que interfira prejudicialmente nas representações objetivas, ou que as mascare a seu capricho. É sempre longa a caminhada e intensa a luta, até que logremos conciliar as duas atitudes e criar, dentro de nós mesmos, objetividade de pensar que corra paralelamente à subjetividade de viver. Nesse instante derradeiro e difícil, em que o conhecimento deixa de ser mera relação entre sujeito e objeto, ou simples auto-revelação do objeto através  do sujeito a si mesmo, um e outro fundidos na ação mesma de ir descobrindo e ser descoberto.” [1]
O pensador conclui, nessa medida,  que sempre estamos expostos às influências e possíveis deturpações que o sujeito possa imprimir no objeto. No entanto, para conduzir a uma possível e autêntica relação entre duas objetividades, a saber,  a objetividade da coisa, assim como a objetividade do sujeito, deve-se levar em consideração  tudo o que possa ser apreendido das relações invariantes e na sua essência real, esta apoiada e reforçada na consolidação da experiência. Unicamente nesse instante pode-se dar um crédito de confiabilidade no que se conhece, com relativa segurança, de que “o mundo é realmente semelhante ao que percebemos, pelo menos na sua única maneira-de-ser- acessível aos nossos sentidos e inteligência, e não como supomos, desejamos ou imaginamos que seja quando o figuramos à semelhança de nós mesmos.” [2]




[1] Almir de Andrade, As duas faces do tempo, p.149
[2] Idem, p. 150.

domingo, 1 de dezembro de 2013

Da Interpretação III

Ana Maria Haddad Baptista

Breve histórico a respeito de interpretação

Sob uma das perspectivas possíveis relacionadas com interpretação, uma das principais é constantemente relacionada com Hermes. Quem foi Hermes?
Conforme a mitologia grega Hermes era filho de Zeus e de Maia. Nasceu numa caverna no Monte Cileno, ao sul da Arcádia.
Desde que nasceu deu sinais de extrema precocidade. Logo no dia em que veio ao mundo roubou parte dos bois de Apolo, ou seja: doze vacas, cem novilhas e um touro.
Com todos estes animais atravessou a Grécia da seguinte forma: amarrou nas caudas dos animais ramos com folhas para que os rastros dos animais roubados fossem apagados à medida que concluíam a travessia.
Sacrificou dois animais aos deuses olímpicos e escondeu o restante numa caverna em Pilos. Visto por um velho chamado Batos tentou comprar –lhe o silêncio e correu para a sua caverna em Cileno. Na entrada da caverna havia uma tartaruga. Hermes conservou somente o casco da tartaruga. Fez cordas de tripa dos bois sacrificados e confeccionou , assim, a primeira lira. Contudo, Apolo estava à procura dos bois roubados e os descobriu na gruta do Monte Cileno. Posteriormente, Hermes guardando o seu rebanho, inventou a flauta. Apolo desejou a flauta da mesma forma que já havia desejado a lira. Ofereceu em troca da flauta um cajado de ouro. Hermes aceitou desde que Apolo lhe desse, também, lições de adivinhação; Apolo aceitou. Hermes aperfeiçoou a arte através de pequenos seixos, aperfeiçoou, inclusive, a leitura do futuro. Zeus, satisfeito com as habilidades do filho tornou-o seu mensageiro. Foi Hermes quem salvou Zeus na luta contra Tífon. Hermes entre tantos outros atributos é considerado o intérprete da vontade divina. Na verdade, sempre que se fala em interpretação remete-se a Hermes, direta ou indiretamente.  [1]
Naturalmente, presume-se que desde o primeiro instante que o homem teve condições, das mais diversas, de interrogar acerca do mundo, houve a questão, num sentido mais amplo, de interpretação, independente da escrita, que, sabe-se, vai ser o marco de uma outra história.
Entretanto, as questões relacionadas com interpretação deverão tomar um rumo mais indagativo a partir da escrita, visto que esta inaugura uma outra forma de memória. A partir da escrita a memória individual ocupará um espaço muito diferente, visto que a escrita , entre tantas outras coisas que poderiam ser enumeradas, inaugura um novo momento: a memória exterior ao homem, o registro. A memória está nesse momento fora do homem.
A linguagem escrita, o registro, conforme se sabe, traçará novos parâmetros para a humanidade, em todos os sentidos, especialmente, os de interpretação.
Interpretar sugere a busca, sempre incansável, de um sentido e de uma significação de algo que seja ‘verdadeiro’. Supõe-se a busca de uma verdade, ou daquilo que esteja mais próximo do verdadeiro sentido. Conforme se vê, tal fato implica em muitas outras coisas que devem ser consideradas em se tratando de interpretação.








[1] Ruth Guimarães, Dicionário da Mitologia Grega, p.p. 175-176-177.