sexta-feira, 16 de março de 2018

Justiça: poesia e verdade como possibilidade


Ana Maria Haddad Baptista




            O  movimento artístico denominado  Romantismo foi, como se sabe, um dos movimentos mais influentes, em diversos sentidos, para se repensar valores humanos. Não ficou restrito apenas às artes em geral ou à literatura. Filosoficamente foi um movimento muito forte, em especial, na Alemanha, França e mais alguns países europeus.  A influência do Romantismo, de alguma forma,  em todas as esferas do pensamento, continua sendo muito grande até os dias de hoje.
            A obra Poesía y verdad de Johann Wolfgang Goethe (1749-1832), Alba Editorial,  Barcelona, é uma  autobiografia do famoso escritor alemão que foi um dos grandes representantes do romantismo alemão. Goethe foi poeta, romancista e advogado.  Um livro brilhante que não se encerra numa simples autobiografia. Em se tratando do gênero surpreende a cada momento. Em princípio porque não se trata de um retrato autobiográfico comum. O livro carrega a mesma carga escritural literária de outros famosos livros do autor. Goethe relata  a sua infância entre os livros da  farta biblioteca de sua casa. Para a época era uma das maiores bibliotecas particulares que alguém poderia ter. Nessa medida, entre outras coisas, nos dá a conhecer a formação escolar que teve, ou seja: teve o privilégio de ter professores particulares excelentes, como era costume à época das famílias abastadas. Relata também as falhas das escolas públicas com o descaso por uma educação de qualidade.
            Em outro momento da obra  trata diretamente de sua vida enquanto universitário. Nessa perspectiva, o leitor terá uma visão detalhada da formação em Direito no século XVIII. Vale ressaltar o senso crítico do autor em relação à sua formação enquanto advogado e, também, das disciplinas e exigências de uma universidade alemã. Em suas palavras: "No es conveniente que los profesores, al igual que otros empleados en cargos públicos, tengam la misma edad. Não obstante, los más jóvenes sólo ensenan para aprender (...) Entre los profesores de más edad, por el contrario, algunos hace ya tiempo que se mantienen estacionarios".  
            Ao longo da leitura do livro, nós leitores, podemos fazer grandes reflexões ao compararmos, involuntariamente, o sistema universitário alemão da época com o do Brasil. Percebemos, inclusive, o quanto a escola ideal, em todos os níveis e graus, carrega falhas em qualquer lugar do mundo. Por um outro prisma, a grande lição de Goethe é mostrar que uma pessoa pode ter diversos interesses. O poeta alemão, mesmo enquanto advogado (atuou por apenas alguns anos), jamais deixou de ter interesse por literatura, música clássica, botânica (foi autor de diversos tratados a respeito do assunto). Em outras palavras: a formação integral de um homem sempre  dará  amplitude aos tortuosos caminhos que conduzem à verdade, paz e justiça. Trio indissociável.

Observação: Este texto foi publicado na Revista Visão Jurídica de no. 138.

sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

Educação, liberdade  e autonomia


Ana Maria Haddad Baptista



Entrevista que concedi para a revista da Academia Brasileira de Letras e publicada, impressa,  em novembro de 2017.

Há vinte  anos da morte de Paulo Freire  qual o balanço de sua obra nas escolas brasileiras, no entendimento segundo o qual a educação é essencialmente prática da liberdade?

As escolas brasileiras estão contextualizadas em um universo mais amplo no cenário mundial. Sabemos, em especial, se pensarmos nas lúcidas análises de Bauman, Hobsbawm e outros pensadores, que todas as hierarquias, não somente as escolares,  estão completamente fragilizadas e isso, a meu ver, é muito bom. Implicam numa desestabilização que, por sua vez, indicam incertezas. Pensando com Edgar Morin e Bachelard:  nada pior do que as certezas.
Creio que em relação às escolas brasileiras Paulo Freire deu e nos dá uma grande contribuição visto que  tem sido reinventado, por exemplo, no ensino superior e em outras instâncias da Educação. Observo, em minha prática, uma grande mudança, embora, muitas vezes, quase invisível, em relação à postura de professores e alunos. Ambos querem mais liberdade para pensar, ousar  e encarar os desafios que a liberdade nos possibilita. Por um outro lado, sem dúvida, existem as resistências. Educação como prática da liberdade exige um despojamento que amedronta e implica, logicamente, em responsabilidades as quais muita gente não tem coragem de enfrentar. Mas meu balanço é bastante otimista. Creio muito nas adversidades. Verdadeiros antídotos contra o estabelecido que desde sempre foi inimigo íntimo da humanidade em todos os períodos históricos.

Construir escolas para não construir prisões no futuro, como alguém já disse...

Construir escolas que efetivamente possibilitem a liberdade de expressão, a liberdade de sermos o que somos,  a participação solidária ou  cairíamos em prisões disfarçadas. E elas existem. Conheço muitas escolas, públicas e privadas, de todos os graus, que possuem grades, diretores com apitos na boca, uso obrigatório de uniformes,  câmeras vigilantes, inclusive, em salas de aula. Peixes aprisionados em aquários. Aves engaioladas. Proíbem o uso de celulares e o acesso a bibliotecas, quando elas existem, é cheio de regras e burocracias. Os 'inspetores de alunos' são vigias  uniformizados. Intimidam com o  olhar.  Plantas e flores artificiais. Desprovidas de vida. Empoeiradas. Os espaços de alimentação, 'gelados', verdadeiros reflexos de refeitórios existentes em presídios. Reina uma atmosfera em que predominam o medo, a repressão e a subordinação.
Tais escolas, via de regra, estimulam 'grades curriculares' que inviabilizam projetos que instiguem o instante, a inventividade e criatividade de professores e alunos. Nessa medida, somente escolas inovadoras e comprometidas  com a real prática e exercício da liberdade poderiam, sim, subtrair, num futuro muito próximo, a construção de mais presídios.  Caso contrário, se pensarmos seriamente e, sobretudo, com Paulo Freire e Foucault, as escolas seriam uma espécie de extensão carcerária. Jaulas que domesticam e, apenas, arruínam o pensamento e o corpo.

Com taxas de analfabetismo importante e múltiplos desafios na formação de leitores, como repaginar a leitura do livro do mundo para jovens adultos?


Esta é uma questão muito delicada. Complexa. Na minha prática docente tem sido central. Uma das dimensões de minhas pesquisas. A formação de leitores envolve variáveis sutilíssimas.
Primeiramente, a perversa ilusão de que a relação entre leitor e livro seja de causa e efeito. Em outras palavras...não basta que uma criança cresça junto a bibliotecas para que se garanta um futuro leitor. Conheço dezenas de pessoas, bastante próximas a mim, que cresceram entre livros e não gostam de ler. Sabemos que milhões de pessoas jamais tiveram acesso a eles até a juventude. Hoje são excelentes leitores. Tornaram-se grandes escritores como é o caso de Saramago.
Uma outra ilusão é pensar que antigamente se lia mais do que hoje. Objetivamente impossível se pensarmos com mais cuidado. Bem ou mal o cenário mundial aponta que o nível universal de alfabetizados aumentou. Apesar de não termos atingido o nível ideal no Brasil, luta-se muito para isso.
Gosto de lembrar Sêneca em Da tranquilidade da alma. Denuncia, há dezenas de séculos, as bibliotecas inertes, apenas enquanto ostentação e enfeitadas com estátuas.  Goethe, em Conversações, nos últimos dez anos de sua vida,  lamenta, com Eckermann, a ausência de referenciais clássicos entre os jovens. Seféris, nos anos 50 do século XX,  critica a falta de referenciais de seus contemporâneos.
Uma outro equívoco grave em relação a leituras é a comparação. Em qualquer situação um perigo. As pesquisas, em geral, apontam, maldosamente, que os brasileiros leem pouco em relação a outros países. Provavelmente não leram O inconformista de Luc Ferry e fugiram de análises inteligentes propostas pelos escritores que acreditam na literatura. Os raros que optaram por literatura-vida e  resistem à sedução do canto da sereia.
Nessa medida, questiono enfaticamente: quais foram as metodologias empregadas para se afirmar que o brasileiro lê pouco? Desde quando a venda de livros pode garantir a real leitura? Comprar um livro é uma coisa. Ler é outra.
 Outro equívoco: há um grande fator, talvez, o principal, o da qualidade dos livros que são lidos. Um livro de quinhentas páginas, necessariamente, não é melhor do que um de 40 ou 50. Sabemos que há livros de algumas dezenas de páginas que nos obrigam a reflexões que perduram por anos. Até por uma vida inteira. Um poema de algumas páginas pode dizer muito mais que trezentas! E a releitura? De tempos em tempos, releio, integral ou parcialmente, as obras pelas quais sou apaixonada. 'Reservas poéticas', consequentemente, 'reservas de vida'. Se mudamos a cada segundo... cada releitura é uma nova leitura. Costumo citar a teoria da Relatividade, ou seja, lembrar que a primeira versão, publicada em 1905, tinha em torno de dez páginas. Sabe-se do impacto epistemológico que abalou as grandes certezas e continua desafiando até hoje  questões que envolvem as ciências e a poética.
Em  minha prática docente que remonta mais de quarenta anos, jamais subtraí de meus alunos o encontro com os livros. Sempre tendo em vista os fatores apontados. Incluo, para completar a resposta, que a escola pode e deve possibilitar o encontro com a leitura, inclusive, por meio de aparatos tecnológicos.
No entanto, talvez, um ponto chave: temos que aumentar as expectativas em relação aos nossos alunos. Infelizmente a maioria dos professores não confia na capacidade de leitura dos estudantes e sabem, apenas, lamentar. A maioria de meus alunos, das mais variadas formações, de graduação ou pós-graduação, sempre acompanharam as leituras indicadas por mim. Recebo, para minha felicidade, dezenas e dezenas de retornos de ex-alunos lembrando da importância dos livros que leram comigo e ressaltando que hoje são leitores.
 Finalmente: os acusadores de que seus alunos nada leem...estão efetivamente lendo alguma coisa? Praticam as necessárias estratégias que levam à sedução pela leitura? Em que medida  são apaixonados por literatura?
Literatura de verdade, diferentemente de outras linguagens que nos assediam a todo momento, exige de seus leitores o encontro com o ausente. Portanto: introspecção, coragem, recolhimento. Paixão. Solidão.
 Leitura exige ritmo. Tão caro a Octavio Paz, Deleuze e pensadores lúcidos. Acompanhar a musicalidade do texto. Em verso ou prosa. Inclusive, em textos de  Filosofia, História, Física, Matemática e outros. A melodia textual, quando interiorizada, gradual e profundamente durante a leitura, determinará, mediante necessidades subjetivas, a velocidade e a verticalidade da leitura. Movimento intransferível. Incomensurável.


A senhora vem se dedicando nos últimos anos a uma instigante aproximação dos conceitos de tempo e liberdade na filosofia de Paulo Freire.


Meu primeiro encontro com Paulo Freire foi em Educação como prática da liberdade. Fiquei, à época, fascinada pelas concepções de temporalidade que ele apontava. Quase quarenta anos depois, por questões contextuais, retornei a suas obras e tive o mesmo impacto! Decidi ir mais a fundo. E uma das primeiras reflexões de Freire, na obra citada, é a respeito da temporalidade humana. Faz uma belíssima comparação entre o homem que, por sua vez, é um ser intratemporal em relação ao gato, 'afogado', em sua temporalidade unidimensional. Freire nos fala em duração e em nota de rodapé, quase invisível, cita Bergson. Nessa perspectiva, sabemos, inclusive pela leitura de Deleuze, que duração é, sobretudo, liberdade e intuição! Bergson contesta na virada do século XIX para o XX  os determinismos! Suas concepções de tempo  são profundas à medida que possibilitam mudanças e, claro, a transformação. A partir de Bergson, Deleuze, Ricoeur, Mia Couto encontrei em Freire o tempo em sua transitividade, mudança, transformação que estruturam verticalmente a concepção de liberdade proposta pelo nosso grande educador.


Por outro lado a senhora parte da abordagem de Paulo Freire, radicada num sensível gradiente poético.

Freire, por incrível que pareça, é acusado, por alguns,  de usar em suas obras uma linguagem 'muito didática'. Sempre desconfiei de tal acusação. Ao analisar as categorias de temporalidade, percebi, com alegria, nas primeiras páginas de A Pedagogia do Oprimido, a musicalidade e os ritmos que me lembravam  o romance-poema Iracema  de Alencar. Além de uma cadência textual similar ao do  conto-poema Desenredo de Guimarães,  os silêncios dos oprimidos retratados, em Vidas Secas, por Graciliano Ramos. Ecos de Morte e Vida Severina de João Cabral. Fiquei muito intrigada com isso. Os textos de Freire possuem uma impressionante poeticidade. Orações justapostas. Predomínio da coordenação. Parti, desta forma, para as entrevistas dadas por ele e indaguei pessoas que, de fato, o acompanharam pós-exílio. Precisava saber, a qualquer custo, a respeito de suas leituras. E os meus pressupostos se confirmaram: Paulo Freire foi um grande leitor de romances, contos e poesias, além de ensaios voltados para a literatura. Era fascinado por metáforas. Sou integrante de um projeto da Comunidade Europeia chamado GLOCADEMICS. Juntamente com a coordenadora, escrevo um livro em que minha parte analisa detalhadamente a poética e o tempo-memória em Paulo Freire.

O Brasil dispõe de uma reserva invejável de educadores de envergadura  ( Anísio Teixeira ,Francisco Venâncio , Darcy Ribeiro). E no entanto , o que há de errado com o sistema?

Serei muito breve. Excesso de memória, tal qual Funnes, o memorioso de Borges. Excesso de importação e comparação de modelos educacionais. O Brasil, como todos os países, precisa, de uma vez por todas, ser compreendido  em sua pluralidade. Valorizar nossa diversidade. Mas, creio eu, acima de tudo, precisamos de educadores apaixonados por aquilo que fazem. Os professores, afirmava Paulo Freire, podem muito mais do que imaginam.  Infelizmente... a maioria deste planeta faz o que não gosta. Nessa medida, aumento de  salários, cursos de capacitação e outras estratégias que visam melhorar nosso sistema caem no vazio. Portanto, a questão é muito mais aguda do que aparenta.

Qual a agenda mais imediata para a formação de uma cidadania plena, republicana e solidária para os próximos anos?

Reestruturar, urgentemente, o Sistema Educacional em todos os graus. Escolas públicas e privadas. Nessa reestruturação ter, em primeiro plano, a bela imagem de Sartre na leitura de Giacometti: como fazer um homem com pedra sem petrificá-lo? Penso em escolas impregnadas de movimentos circulares. Espaços, em sua totalidade, cuidados pelos próprios alunos. Desde a alimentação até a limpeza. Sem hierarquias rígidas. Escolas envolventes onde provas e chamadas seriam dispensáveis. Que exalem beleza espacial, poesia, paixões alegres. E o melhor: eu conheço, de perto, algumas escolas assim. São possíveis. Desnecessário um investimento econômico muito grande. Ressalto que li, recentemente, um livro cujo autor é professor de uma das universidades americanas mais prestigiadas e ricas  do mundo. Relata o alto grau de infelicidade e depressão da maioria de seus estudantes.



sábado, 25 de novembro de 2017





Educação: Bataille e a interioridade




Ana Maria Haddad Baptista





         

O que realmente pode se entender por subjetividade? Quais seriam seus limites? Haveria uma profundidade subjetiva, tal como nos sugerem Bergson, Kant e tantos outros filósofos? Em que medida conseguimos, via Deleuze, alcançarmos as profundezas de nossa temporalidade, visto que subjetividade, sob certa perspectiva, não passa de temporalidade interior? Em outras palavras: temporalização humana.  Esta e outras questões são colocadas à tona iluminadas por uma espécie de constelação dos conceitos formulados por Georges Bataille na obra A experiência interior, tradução de Fernando Scheibe, editora Autêntica.
            Bataille em vida foi um escritor pouco conhecido. Quase marginalizado. Seu conjunto de obras, muito variado, felizmente, foge às categorias das grandes e canônicas classificações. E, sabe-se, quando uma obra não se subordina ao lugar comum, a tendência quase que imediata é ficar de lado. Porque desconcerta. Desafia. Instiga. Põe em risco a servidão-escravidão (sempre útil).  Verdade seja dita.
            Nessa medida, a obra em questão nos coloca em xeque. "A experiência interior responde à necessidade em que estou - e a existência humana comigo -de pôr tudo em causa (em questão) sem repouso admissível. Essa necessidade já atuava apesar das crenças religiosas, mas tem consequências muito mais radicais na ausência dessas crenças. As pressuposições dogmáticas deram limites indevidos à experiência: aquele que já sabe não poder ir além de um horizonte conhecido." O fragmento em referência denuncia um dos polos do livro. A moral, o comportamento e outros conceitos colocados à prova da possível submissão ou transgressão. Neste sentido, a leitura do livro conduz, a nós leitores, questionarmos, a fundo, nossos próprios valores. E nos conduz ao confronto. Tarefa dolorosa. Exercício no qual somente a boa literatura poderá fornecer, como , por exemplo, no seguinte fragmento: "A experiência interior, por não poder ter princípio nem um dogma (atitude moral), nem na ciência (o saber não pode ser nem seu fim nem sua origem), nem na busca de estados enriquecedores (atitude estética, experimental), também não pode ter outro anseio nem outro fim que ela não própria. Abrindo-me à experiência interior, postulei seu valor, sua autoridade. Não posso de agora em diante ter outro valor nem outra autoridade. Valor, autoridade implicam o rigor de um método, a existência de uma comunidade". Diante do exposto, minimamente, conseguimos vislumbrar os principais elementos que circunscrevem a tão sonhada liberdade. As indagações mais reveladoras, a nós mesmos, se traduzem, por exemplo, em como escapar da autoridade.
            Em outras palavras, segundo o autor: em que medida ao negarmos qualquer forma de autoridade, não estaríamos, nos próprios, a impor uma outra autoridade? Seria possível sair de tal círculo quase vicioso? A supressão de determinados valores nos carrega a impor outros? Mais adiante, na obra em questão, Bataille provoca o leitor no sentido de que seria necessário apreender certos conceitos por dentro. Em nossa obscura (talvez) interioridade. Como? A prática seria um bom caminho? Não há respostas prontas. Bataille jamais se sujeitaria a tal redução. Os grandes nós existenciais permanecem, sabemos, na disputa das mais variadas trilhas. Por quem morrer? Por quem dobrar os sinos? Por onde caminhar? Será que devemos, ou não, enterrar nossos corações nas curvas de rios?  
            Avançando na leitura deste livro fascinante, em uma outra parte, propõe Bataille: "Existe na base da vida humana um princípio de insuficiência. Isoladamente, cada homem imagina os outros incapazes ou indignos de 'ser'. Uma conversa livre, maledicente, expressa uma certeza da vaidade de seus semelhantes; um falatório aparentemente mesquinho deixa ver uma cega tensão da vida como rumo a um ápice indefinível. A suficiência de cada ser é contestada sem trégua pelos seus próximos. Mesmo um olhar que exprime admiração se agarra a mim como uma dúvida." E novamente somos convocados para um mergulho em nossas convicções, agora, mais abaladas do que nunca. Por que somos tão insuficientes? Os grandes pensadores (artistas, filósofos, poetas, escritores) de alguma maneira expuseram a nossa condição humana, inelutável: solidão. Ler Bataille convence, quase como de um salto, o confronto com o indizível, a incompletude e com aquilo que promete e não cumpre. Nessa medida, temos que atravessar  a solidão. Não existe escapatória. E sedutoramente Bataille nos conduz a questões de autonomia. Diz-nos o quanto ela é incerta, movediça. A condição humana, afirma o autor, nos coloca entre uma certa oposição. Ou seja, entre as incertezas da autonomia rumo à transcendência. Nesse sentido, a vontade humana de autonomia se opõe, num primeiro momento, ao conjunto que nos rodeia, o todo do universo. Mas a autonomia ao se opor corre o risco de definhar. O perigo da renúncia. No entanto, tal estado é passageiro. Por algum tempo. Contudo, o equilíbrio, numa espécie de movimento, se recupera, se faz e se dobra ao conjunto. Ao todo. Há, continua Bataille, o fator angústia. A angústia da submissão do mundo, digamos, aos nossos desejos e vontades. Vontade de ser nós mesmos e colocarmos em ação nossas ações menos transparentes.
            Finalizando...Bataille possui um estilo. Inconfundível. Qualidade excepcional daqueles que, realmente, merecem ser denominados verdadeiros ensaístas. Possuem uma estética que vai além do banal e do comum. Ler Bataille  é como enveredar nas malhas de uma teia finíssima de erudição e, sobretudo, humanidade. Uma literatura que merece ser denominada como tal!

Obs: Este texto foi publicado pela Revista Filosofia (impressa) de no. 132.