segunda-feira, 4 de setembro de 2017

Educação

A poética interdisciplinar de Marco Lucchesi ou a estética do labirinto/ Parte II

Ana Maria Haddad Baptista





Da solidão da obra
           
            O conceito de solidão pode ser apreendido sob diversos aspectos. Fala-se muito dela. Aquela que designa um estado individual e do qual não podemos escapar. Há a solidão histórica e tantas outras. O conjunto literário de Marco Lucchesi é marcado pela solidão da obra. Aquela solidão tão bem definida por Blanchot [1]. Em que consiste a solidão da obra? O que Blanchot designa por solidão essencial. O escritor diante de um trabalho que jamais tem um fim. Estética do labirinto.  O escritor que tem diante de si [2]:

A cada folha
em branco                   a cada
verso
                        inexistente
a baba do dragão
                e o fero basilisco

            A solidão essencial... "irreparável solidão?"[3] . A consciência do escritor de que sua obra é sempre inacabada. Rumo ao infinito. O vazio da folha em branco. A solidão de Lucchesi, ainda na esteira de Blanchot, de que essa condição o coloca em risco, ou seja, o que pertence, de fato, à obra, está, na verdade, ao que está sempre ao que vem antes dela. Ouçamos o ressoar da poesia: [4]:

As páginas brancas
do livro
do mundo e o sonho
verde
do alquimista

            Lembremos Foucault: "Neste momento em que escrevo e em que me falta tão cruelmente a certeza de poder fazer um livro (...) escrevo hoje e aqui a partir de sua inexistência e do vazio que eles deixaram em mim" [5]. Da solidão essencial da obra e do escritor advém a universalidade da voz literária. A universalidade no sentido de um eu que deve, obrigatoriamente, reconhecer-se fora de si mesmo. A solidão total do escritor ao se deparar com o abismo de sair de si sem qualquer âncora. Nas palavras do poeta [6]:

Cai a tarde sobre o campo.
Pelos tristes caminhos, um ser,
imoto e solitário,
provando uma estranha
soledade, uma privação de tudo,
um vasto abandono,
um leve
crepuscular desespero,
contempla o ouro gasto do Sol
e as
imensidões
da
Terra.

Das belezas
do acaso
se apodera,
de sonho
e solidão,
enquanto
haure
o singular
mistério
da distância,
e seu aroma
de tristeza
e abandono,
de golfos
extremados,
enseadas
convulsas
ilhas
torturadas.

            O maior desafio para um escritor de verdade é o não ser ele mesmo. Nada pior do que o 'eu'. Muitos pensadores já disseram isso. Enganam-se aqueles que acham que escrever é 'contar a historieta de sua própria vida'. Escrever, acima de tudo, é buscar uma universalidade. E para tal empreendimento somente uma voz universal. A voz que fala por uma mulher, sem ser mulher. A voz que fala por um gato, sem ser o gato. A voz que fala por um cavalo, sem ser o cavalo. Observe-se no poema em questão de Lucchesi, o eco universal. O abandono. Na verdade, talvez, a melhor síntese, neste caso, seria a voz da solidão. Em outras palavras: a solidão falando por ela mesma. Impessoal. A voz do universal como também é o caso de Lucchesi falando pelo deserto, ou o devir-deserto "(...) mas uma noite, Leila, flutuava em teu rosto, banhado de sombras, e se revelava num claro fulgor, longe dos males do exílio, das mortes que se abatem, nas folhas levadas pelo vento, tristes desarmonias, desferidas pelo fundo das coisas..."[7]. E para tanto é preciso desviar-se de si. Deixar de ser a si mesmo. A renúncia absoluta.
            A solidão essencial, a da obra, a do escritor, proposta por Blanchot, não passa despercebida à sensibilidade de Ana Miranda num mini conto dedicado ao poeta: "(...) nesse mesmo quase silêncio escorrega a memória de ele [Marco Lucchesi] ontem a tocar piano, debruçado, intenso, sem olhar nenhuma partitura, sem olhar as teclas, olhando para dentro de si,  de suas recordações, de seus silêncios. (...) mas ele não me vê, nem poderia me ver, sou ausência, ele toca enfeitiçado e surdo as teclas de seu piano, compondo poemas em formas de sons, [e a arquitetura do labirinto oscila] às vezes entusiasmados, às vezes distraídos, sob a influência de suas galáxias longínquas, seus mares azuis inacabados, suas águas claras, seus deuses sem definição, a beijar pedras, palavras sussurradas e rebanhos, tornando tudo o mesmo horizonte" [8].
            Qual o horizonte do poeta? Em suas palavras: "Um quadro absolutamente feroz, entre diferença e repetição, em que homens e planetas quimicamente se desdobram como num sonho vasto. Presente que é irmão do abismo, com universos inacabados, preenchendo a solidão, como se lhe diminuísse o horror ao vazio, num agora crescente vertiginoso" [9]. A obra ao infinito, ainda com Blanchot, porque um escritor, de verdade, jamais termina uma obra. Estética do labirinto. (Os ecos, furiosos, de Nietzche: "Meus impulsos e minhas intenções estão confusos (...) e se tornam labirínticos: de modo que não sei como deixá-los"[10]). Seu projeto é sempre inacabado. Uma obra aponta para aquela que haverá de surgir. E com isso, novamente, a solidão do poeta, estritamente vinculada à solidão da obra.
            Em outras palavras, a obra ao infinito, no conjunto de Lucchesi, é notadamente marcada pela busca. Estética do labirinto. ("o rastro de uma busca interminada, sempre a ponto de se completar e que jamais se completa"[11]).
              Clio é, fundamentalmente, a busca de uma memória histórica. Obra composta por três partes cujo fio condutor que as une está, inclusive, em seu projeto estético. Mas, sobretudo, a consciência poética, tão bem definida por Octavio Paz, de que a poesia não está a serviço da História, como no poema Ofício :

a superfície em que sou imerso
                                         esta
                          e não    outra
                minha profundidade
           
            O diálogo de Lucchesi com a História se estende, também, aos seus romances. Na obra O Dom do Crime o narrador coloca as vozes de Machado de Assis numa sinfonia com a História do Brasil. Disso resulta um diálogo com a literatura machadiana que recupera, vivamente, uma tradição histórica e  literária. Um eu que se distancia dos fatos que irá tratar nos romances e, ao mesmo tempo, resgata o clima do passado. Quais os contornos que estruturam tal diálogo com a História e com a Literatura? Neste caso,  uma ironia marcada pelo requinte e erudição daqueles que conhecem profundamente a história do Brasil e os finos meandros da literatura machadiana. Daí surge um diálogo, (urgentíssimo para o nosso país de hoje), entre os limites do 'real' e do 'ficcional'.  A leitura de O Dom do Crime, entre tantas outras coisas, provoca a busca de nossas tradições. Convoca a reflexão. E, acima de tudo, deixa claro que: "A História é o centro de um mundo épico. O singular e o irrepetível morrem no oceano do tempo. Apenas a ficção há de ser o anjo da guarda das formas individuais, a memória de uma paisagem agostiniana"[12] . Eis a síntese ficção-verdade-realidade que orquestra a obra. Obriga-nos a uma profunda revisão da história. O legado de uma tradição que  deve ser repensado. Alterado? Atualizado?  
            Tal diálogo se estende ao outro romance do autor, ou seja, O Bibliotecário do Imperador. Neste romance o que impera é o longo diálogo com os livros. Com as bibliotecas. Acima de tudo a questão da verdade, em especial, as brumas pelas quais são regidas uma autobiografia, verdade e ficção. Um exercício de reflexão  labiríntico.

O diálogo com as ciências

            Os ensaios, os poemas e os romances de Lucchesi estão em constante diálogo com as ciências. No entanto, chama a atenção, nesta perspectiva, a obra Hinos Matemáticos. Como o próprio título indica, neste livro, literatura, filosofia e matemática  estão mais interligados, como no poema Eros:

Serpeiam por difuso sortilégio
dois amorosos números solares
de mãos dadas: o 220
com o 284
Bastou que se encontrassem e disseram
os versos que de pronto os definia:
eu morro em mim para nascer em ti

            Esta poema não possui uma  linguagem que faz empréstimos, sem garantias,  (como geralmente é o lugar comum), de termos matemáticos. Temos aqui, acima de qualquer coisa, conceitos matemáticos que se desprendem num enlace amoroso. O tom erótico (levíssimo). A poesia da matemática. "Números amigos. Números especulares. A soma de seus respectivos divisores resulta no outro" [13].  Este diálogo com a matemática nos leva a pensar o que, de fato, exige o olhar interdisciplinar, ou seja, não basta jogar ao acaso números, dados e símbolos. Nas palavras de Ubiratan D'Ambrosio: "A dúvida final de Sócrates, sobre como se reconhece um amigo, no Lísis de Platão, recebe de Marco Lucchesi uma emocionante resposta, quando diz 'eu morro em mim para nascer em ti', no poema Eros, ao refletir sobre números amigos como introduzidos pelo Pitágoras místico"[14] . Ouçamos Lucchesi: "A ideia da beleza na matemática, que se encontra em diversos autores, como Hardy ou Poincaré, causou em mim grande impacto. Como se me deparasse com uma verdade perdida, um substrato arqueológico que me parecia  estranhamente familiar e decisivo. Apreciava na geometria do caos o conceito de escala ou de autossemelhança, esse fio de Ariadne, diante de cujos labirintos ["Vir para onde? Vir, ainda que para lugar nenhum, apenas lá onde - nas fendas do morrer - a luz incessante (que não ilumina) fascina". [15]] fractais eu descobria saídas e passagens" [16]. Estética do Labirinto.

De memórias e diários

            Muitos escritores mantiveram diários e memórias ao longo de seus percursos literários. Gide, Seféris e tantos outros. No entanto, no caso dos grandes escritores, o diário não é um registro de lamúrias e projeções de um eu. Eis aqui a sutilíssima advertência de Blanchot [17]: há uma necessidade vital do escritor lembrar-se de si mesmo! Precisa saber quem é quando não escreve. Afinal, possui um cotidiano. Possui uma vida! Em Saudades do Paraíso, por exemplo,  os postulados de Blanchot ficam muito claros na literatura de Lucchesi: "O deserto é um espelho e o Marrocos acenava como a promessa de uma salvação incondicional de mim mesmo. Farto de meus pensamentos, abespinhado com os meus dias, anotei antes de viajar: 'Ainda não desapareci totalmente de mim. Persisto. Perlustro. Persigo minha solidão e suporto minha escassa permanência'. Subjugavam-me o peso das leituras e o fantasma da morte" [18]. Claramente o escritor precisava lembrar de que tem uma identidade que não a mesma daquele que escreveu!  E também: "Sou uma nuvem de livros e ideias fervilhantes. Inúteis delimitações da decadência, em Gibson, e da teologia, em Al-Ghazali. Horizonte de nuvens carregadas. Sentimentos opacos. Este sou eu." [19]. Estética do labirinto. "Há uma imagem de Bergson, que representa a vida como o fio da meada ["...o delicado fio de Ariadne..." [20] ] que também pode retornar a si mesma, valorizando talvez algo que possuíamos e de que não tínhamos consciência" [21]. Mas "filosofar não vai sem elã, muito menos sem um elã violento, que lança adiante e que arranca também: que arranca ao sentido depositado, sedimentado, meio decomposto e que lança a um sentido possível, sobretudo não dado, não disponível, que é preciso espreitar, surpreender em sua vinda imprevisível e jamais simples, jamais unívoca" [22].

Advertências provisórias (quase)

            O diálogo interdisciplinar  poético de Marco Lucchesi é estruturado pela estética do labirinto que, por sua vez, é regida pela erudição, diálogo permanente com o exercício do pensamento. Com o inacabado:  sensível e inteligível apontam para o infinito. Instante-síncope?  Pensando com certos pressupostos de Deleuze, a respeito de literatura, e diante do que foi exposto neste ensaio, facilmente se distingue aqueles que possuem 'intenções literárias' e os raros que podem, realmente, dizer-se escritores. Atente-se para a importante advertência de Ettore Finazzi-Agrò : "O que espanta, em Marco, não é apenas a amplitude de suas atividades culturais (tradutor, crítico, editor de revista, estudioso de línguas), mas sim a sua capacidade de transitar ["poeta que sempre viajou através dos séculos e das estrelas" [23]] por essas atividades mantendo uma coerência de fundo, um rigor e uma capacidade de se exprimir na pluralidade que tem poucas comparações, que eu saiba, no mundo" [24].
            Para os poetas autênticos, cujas liberdades são intransferíveis, prêmios são secundários. Entretanto, sem hesitações, pode-se também advertir que Marco Lucchesi  é um dos únicos (do mundo) e deste país, (labiríntico, plural, cintilante, oscilante, entremeado [pelas mais diversas solidões]), digno (mesmo se considerarmos as amarguras relativas a prêmios de Thomas Bernhard) de receber o Nobel de Literatura.
            O fio de Ariadne da estética do labirinto de Marco Lucchesi é tecido pelo sublime. Eterno fascínio. Nas palavras de Deleuze: "Dioniso é a afirmação do Ser, mas Ariadne é a afirmação da afirmação, a segunda afirmação ou o devir-ativo" [25].  A estética do labirinto da literatura de Marco Lucchesi  balança (linhas sísmicas, como se nada/ mais pudesse/ permanecer de pé [26] ) a arquitetura do próprio labirinto visto que a torna sonora e musical. Uma música que faz desmoronar os territórios e tremer a arquitetura (flutua /em mil pedaços [27]) do labirinto [28]. Sob tal ótica nossas  convicções abrem-se e dividem-se em intervalos. O fio de Ariadne, neste caso, lança, relança, dança e define uma flutuação... "o momento musical : a passagem do tempo para fora do tempo, a composição dos presentes passados e por vir num presente que não é o da presença dada, mas o do lembrete e da espera, o presente composto de uma tensão em direção ao retorno infinito de uma presença nunca dada, sempre essencialmente - eternamente -escapada" [29].  Convolados, somos convidados aos silêncios e conceitos que se dissolvem ao ressoar da ramagem que recorda a melodia dos tempos  [30].
               
  Observações:         

1. Marco Lucchesi ocupa a cadeira de no. 15 da Academia Brasileira de Letras.Poeta, romancista, ensaísta, tradutor, editor e conferencista brasileiro.  Professor titular de Literatura Comparada na Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Seus livros já  foram traduzidos para o árabe, romeno, italiano, inglês, francês, alemão, espanhol, persa, russo, turco, polonês, hindi, sueco, húngaro, urdu, bangla e latim.

2. Texto publicado na Revista Filosofia,  versão impressa, Editora Escala, em agosto de 2017.

Referências Bibliográficas

BLANCHOT, Maurice. L'espace littéraire. Paris: Gallimard, 2012.
__________________. Uma voz vinda de outro lugar. Tradução de Adriana Lisboa. Rio de Janeiro: Rocco, 2011.
BLANQUI, Louis-Auguste. A eternidade pelos astros. Organização de Marco Lucchesi. Tradução de Luciana Persice. Rio de Janeiro: Rocco Jovens Leitores, 2016.
DELEUZE, Gilles. Crítica e Clínica. Tradução de Peter Pál Pelbart. São Paulo: Ed. 34, 1997.
FOUCAULT, Michel. Michel Foucault. Tradução de Abner Chiquieri. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2014.
LUCCHESI, Marco. A Flauta e a Lua: poemas de Rûmî. Rio de Janeiro: Bazar do Tempo, 2016.
_______________. Poemas Reunidos. Rio de Janeiro: Record, 2000.
_______________. Os olhos do deserto. Rio de Janeiro: Record, 2000.
_______________. Saudades do Paraíso. Rio de Janeiro: Lacerda Ed., 1997.
_______________. Clio. São Paulo: Biblioteca Azul, 2014.
_______________. A memória de Ulisses. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2006.
_______________. Viagem a Florença: cartas de Nise da Silveira a Marco Lucchesi/organização de Marco Lucchesi. Rio de Janeiro: Rocco, 2003.
_______________. O bibliotecário do Imperador. São Paulo: Globo, 2013.
_______________. Carteiro Imaterial. Rio de Janeiro: José Olympio, 2016.
_______________. Hinos Matemáticos. Rio de Janeiro: Dragão, 2015.
_______________. Rudimentos da Língua Laputar. Rio de Janeiro: Dragão, 2015.
_______________. O Dom do Crime. Rio de Janeiro: Record, 2010.
MIRANDA, Ana. In: Lembrança de uma manhã. Revista Brasileira 88: Rio de Janeiro, 2016.
NANCY, Jean-Luc. Demanda: Literatura e Filosofia. Tradução de João Camillo Penna et.ali. Florianópolis: Ed. UFSC/Argos, 2016.
NIETZSCHE, Friedrich. Volumen IV. Tradução de Marco Parmeggiani. Madri: Editorial Trotta, 2010.
SARTRE, Jean-Paul. Que é a literatura?. Tradução de Carlos Felipe Moisés. Petrópolis, RJ: Vozes, 2015.







[1] L' espace littéraire, p. 17.
[2] Marco Lucchesi, Sphera, p. 37.
[3] Marco Lucchesi, Poemas Reunidos, p. 51.
[4] Idem, p. 53.
[5] Michel Foucault, p. 43.
[6] Marco Lucchesi, Poemas Reunidos, pp. 112-113.
[7] Marco Lucchesi, Os olhos do deserto, p.29.
[8] Revista Brasileira, p. 209.
[9] Marco Lucchesi, A Eternidade pelos Astros, p. 9.
[10] Correspondencia, Volumen IV, p. 403.
[11] Ettore Finazzi-Agrò, A memória de Ulisses, p. 12.
[12] Marco Lucchesi, O Dom do Crime, p.38.
[13] Marco Lucchesi, Hinos Matemáticos, p. 38.
[14] Idem, p. 10.
[15] Maurice Blanchot, Uma voz vinda de outro lugar, p. 101.
[16] Idem, p. 51.
[17] L'espace littéraire, p.24.
[18] Saudades do Paraíso, p. 69.
[19] Marco Lucchesi, Os olhos do deserto, p. 81.
[20] Marco Lucchesi, Carteiro Imaterial, p. 97.
[21] Marco Lucchesi, A Memória de Ulisses, p. 201.
[22] Jean-Luc Nancy, Demanda, p. 36.
[23] Nise da Silveira, Viagem a Florença, p. 63.
[24] Memória de Ulisses, p. 10.
[25] Crítica e Clínica, p. 118.
[26] Marco Lucchesi, Poemas Reunidos, p. 150.
[27] Idem, p. 45.
[28] 'Inspiro-me' nas cintilações de Deleuze em sua leitura poética de Nietzche-Wagner.
[29] Jean-Luc Nancy, Demanda, p. 80.
[30] Marco Lucchesi, Poemas Reunidos, p. 196.

sexta-feira, 1 de setembro de 2017


Educação

O diálogo interdisciplinar na  poética  de Marco Lucchesi ou a estética do labirinto/ Parte I

 

Por Ana Maria Haddad Baptista

 

Advertências preliminares 
           
            Mergulhar, da superfície à profundidade, no conjunto de obras do poeta, romancista, ensaísta, tradutor, Marco Lucchesi, é um desafio tão arriscado  quanto pular do último degrau da Torre de Babel. ("Do abismo para o abismo"[1]). Desabar em um labirinto, que como tal, não possui, matematicamente, nenhuma invariável. (Regido exclusivamente por variáveis em espaços de indeterminação.) Desvendar "um homem solitário diante de sua dolorosa solidão" [2] e temporalidades (meio-dia?).
            Lucchesi possui um   conjunto extenso de obras. De uma pluralidade onde o conceito de gênero e interdisciplinaridade, uma vez mais, deveriam ser repensados seriamente. Ensaios, poemas, romances, traduções e projetos experimentais (tão bem conceituados por Haroldo de Campos). Labiríntico,  o percurso poético de Lucchesi não se perfaz em linhas de sucessões, mas por cintilações desestabilizadoras. Não há uma direção a seguir. Estética do labirinto. ("Onde é o começo? É alguém ou alguma coisa que começa?" [3]). Desdobra-se sob o fascínio do surpreendente.  E quando o leitor pensa que encontrou a saída é mobilizado por ressonâncias.  Isto é, "o anterior e posterior, o inacabamento e o incomeço que pertencem por essência à ressonância" [4].  
            O leitor, inclusive, há de  encarar a sedução  proposta por Sartre: "o escritor sabe que fala a liberdades atoladas, mascaradas, indisponíveis; sua própria liberdade não é assim tão pura, é preciso que ele a limpe; é também para limpá-la que ele escreve" [5].  Lucchesi compreende  a formulação poética enquanto um pensamento que se deve dizer. Mas não desenvolver. O inacabado.  Nessa perspectiva, para o autor, "poesia e literatura não suportam a insistência de uma significação ou de um conjunto de significações já constituídos e organizando-se pela coerência de um discurso unicamente lógico", como tão bem adverte Blanchot. Um dos maiores exemplos disso, no conjunto das obras de Lucchesi, é o alto experimentalismo na obra Rudimentos da Língua Laputar:  "Trata-se de uma língua perdida, que procurei, como paciente e desesperado arqueólogo, trazer de volta a nossos dias, na medida de minhas forças, apesar dos inúmeros entraves criados pela mistificação do livro Gulliver's Travels [6].
            Enfim, a poética  de Marco Lucchesi é uma espécie de prova, quase definitiva, de que literatura, acima de tudo, não se faz apenas com ideias vagas e pensamentos dispersos. Ou seja, as famosas afirmações, sempre esgarçadas, de lugar comum, que banalizam o rigor da verdadeira literatura e  subtraem a responsabilidade irrestrita de quem tomou para si desvendar os grandes mistérios que regem, não somente, o Universo. Eis uma literatura que dialoga, tranquilamente, com a História, Filosofia, Matemática, Astronomia, Física e outras áreas do conhecimento. Subjaz em todo seu diálogo poético interdisciplinar a compreensão de  que,  (especialmente com Octavio Paz, Gaston Bachelard, Gilles Deleuze e Ernesto Sabato), para os poetas existem zonas de realidade não apreensíveis pela racionalidade. "Prefiro o céu de Blanqui, mil vezes superior ao esquálido sistema positivo (...) aposto na beleza das janelas diante do infinito" [7].  Além disso, Lucchesi estabelece (em muitas obras)  o diálogo, essencial e fundamental, entre Ocidente e Oriente como demonstram sua belas traduções advindas do romeno, italiano, árabe, persa,  somente para ficarmos com alguns exemplos, como no seguinte fragmento de poema (traduzido por Lucchesi) de  Rûmî [8]:

O que fazer, se não me reconheço?
Não sou cristão, judeu ou muçulmano.

Se já não sou do Ocidente ou do Oriente;
não sou das minas, da Terra ou do céu.

Não sou feito de terra, ar ou fogo;
não sou do Empíreo, do Ser ou da Essência.

Nem da China, da Índia, ou Saxônia,
da Bulgária, do Iraque ou Hurassân.

Não sou do paraíso ou deste mundo,
não sou de Adão e Eva, nem do Hades.

O meu lugar é sempre o não lugar,
não sou do corpo, da alma, sou do Amado.

O mundo é apenas Um, venci o Dois.
Sigo a cantar e a buscar sempre o Um.


Observação importante: Este texto foi publicado na Revista (impressa) Filosofia de no. 129 da Editora Escala. 
  


[1] Marco Lucchesi, Teatro Alquímico, p. 93.
[2] Idem, p. 15.
[3] Maurice Blanchot, Uma voz vinda de outro lugar, p.31.
[4] Jean-Luc Nancy, Demanda, p. 80.
[5] Que é a literatura?, p. 60.
[6] Marco Lucchesi, Rudimentos da Língua Laputar, p. 9.
[7] Marco Lucchesi, O Dom do Crime, p. 11.
[8] A Flauta e a Lua, p. 22.

sexta-feira, 7 de abril de 2017

Educação:  O Carteiro Imaterial ou  uma reserva de signos sensíveis

Ana Maria Haddad Baptista

            Se pensarmos nas famosas questões que envolvem a recepção das leituras, ou seja, em que medida as pessoas estão lendo? Antigamente se lia mais do que hoje? Por que as pessoas leem tão pouco? Veremos que praticamente todas as épocas se 'equivalem'. Basta um estudo sério e uma pesquisa mais aguçada para que saibamos que a leitura sempre disputou com outras atividades. E mais: a concorrência sempre foi desleal. Os saudosistas de um passado idealizado e, muitas vezes, sem a menor base histórica, decretam, com um prazer imbecil, que ninguém mais lê. As fundamentações são risíveis-ridículas. Entre elas, por exemplo, que a televisão e a internet acabaram com a leitura. Facilmente dedutível que nunca se leu tanto como hoje.
            Carteiro Imaterial de Marco Lucchesi, editora José Olympio, obra lançada recentemente, é um livro de ensaios. Uma das provas materiais de que a  boa literatura se mantém mais viva do que nunca. Erudição que não humilha. Traduz-se em convites pelos percursos do autor dialogando com pensadores, escritores. Lucchesi sabe que os caminhos da literatura, (nas mais diversas dimensões), jamais foram gratuitos.
            Carteiro Imaterial é, como todos os livros de Lucchesi, um livro de ensaios que se particulariza e desestabiliza o leitor. Quer pela pluralidade, quer pela sua habitual poeticidade. Vamos ao título! Carteiro lembra, docemente, mensageiro. A espera de uma carta. De um livro. Ou o inesperado. Que delícia quando um livro enviado por um amigo surpreende! Imaterial? Entre outras leituras possíveis a imaterialidade da obra em questão reside, justamente, na emissão dos signos poéticos que integram um dos fios de unidade do Carteiro Imaterial. Sabe-se: os signos poéticos são aqueles desmaterializados porque nasceram de uma sensibilidade. São os famosos signos espirituais. Os verdadeiros mensageiros da comunicação efetiva. Signos poéticos. Os responsáveis pelas reais intersubjetividades. Nessa medida, o Carteiro desdobra-se em cartas e ensaios no sentido mais estrito. Antecedidos por um sumário composto por verdadeiros ícones (no sentido de Peirce),  em que apontam, para cada parte, o que irão oferecer aos leitores. Destacamos da  'primeira parte', intitulada por Lucchesi de Carteiro Imaterial, Tragédia na Síria, um texto de denúncia. Comovente. O texto é a prova cabal de que o escritor jamais se desliga da vida. Literatura-Vida. O entrelaçamento necessário. "É preciso rever a ideia inicial que se configurou acerca do EI, para enfrentá-lo com parâmetros claros, num terreno ambíguo, no qual já não se pode mais tergiversar, no enfretamento de duas guerras simultâneas: a física e a virtual. Só o tempo será capaz de dizer qual das duas guerras causou maior número de vítimas". E ao longo deste ensaio um diálogo comovente com seu amigo jesuíta Paolo Dall'Oglio. Desaparecido em meio a tentativas corajosas de restabelecer a paz no Oriente.
            O lúdico inteligente,  dissolução de tristezas,  também está presente numa carta sensacional que Lucchesi endereça ao gramático Evanildo Bechara "na ortografia dos ideogramas", ou seja, "(...) alssemos, pois, karo mestre, o paviliao da paz no kampo de batalia da ortografia. Ke cessem alfim as inuteis geras, sange, e orror ke a etimolojia - tiranika! - nos impoe inklemente."
            As armadilhas que cercam a tradução são pensadas no livro. "A tradução é para sempre um gesto incompleto, um horizonte que se afasta, quanto mais próximo se mostra ao observador. Não possui um centro absoluto, capaz de legislar sobre o que se afasta e distancia, e não dispõe tampouco de um código que decida sobre os limites entre contrafação e original". E sobre o assunto Lucchesi possui experiência de sobra. Transita, inclusive na obra em questão, com tranquilidade, pela Torre de Babel.  Árabe, persa, romeno, italiano, grego e mais uma dezena de línguas. Para fazer jus ao Carteiro Imaterial  somente lendo-o. Qualquer apresentação de uma obra rica é lacunar, injusta e inconclusa. Os signos poéticos emanados por esta obra denunciam a essência do autor: originalidade-generosidade-humanidade. E, também, a atitude corajosa dos verdadeiros poetas que acreditam no fluxo e refluxo de influências responsáveis por  transformações. O Carteiro responde, de forma subjacente, uma questão antiga e muito cara a leitores, pensadores, poetas, isto é, em que medida a poesia pode ser reflexiva e dar respostas a questões intelectivas? Ou: em que medida  um poeta precisa do ensaio para questionamentos? Quais seriam as fronteiras entre um ensaio literário e  poesia? Nessa medida, temos no Carteiro uma poesia que pensa por si só.  A real dimensão do quanto a poesia pode dizer mais verdades do que a filosofia, assim como o ensaio não possui uma linguagem de evidências, como muitos poetas já afirmaram, e a poesia, entre outras coisas, é a linguagem da evidência. Enfim, os limites entre o ensaio e a poesia são nebulosos e movediços. A prosa literária sem poesia é um mero documento ou uma narrativa fossilizada.  Nada mais.

Observação: Este texto foi publicado, impresso,  pela Revista Filosofia.

Educação-Literatura-Vida: na aula de 05.04.2017, outono, Letras, meus alunos da Universidade Nove de Julho analisando o Carteiro Imaterial  e declamando poesias de Marco Lucchesi. 








quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017



  O que podem os diários?

Ana Maria Haddad Baptista
            
Kant, entre  dezenas de outros que poderiam ser citados, foi um dos principais pensadores a estabelecer bases sólidas para reconhecermos um novo modelo de subjetividade. Para se percebê-la  muito próxima do que hoje a entendemos. Ou seja, em que medida dialogamos com nossa interioridade? Em que medida temos acesso à nossa verdadeira forma de existir? Um dos motivos pelos quais o Romantismo, em toda a sua extensão, foi, de certa forma, tão revolucionário. A subjetividade, a partir de Kant e dos românticos, emerge com novos contornos.
            Nessa medida, cartas, memórias e diários passam a ser entendidos sob o olhar da desconfiança de nossas aparentes verdades. De qualquer ângulo que se possa imaginar, diários significam, de certa maneira, confissões íntimas. Subterrâneas. E além disso tudo, um longo diálogo com os níveis mais profundos de nossa subjetividade. Uma espécie de abertura para o ser.
            Diários, de nosso saudoso Lúcio Cardoso, uma obra editada por Ésio Macedo Ribeiro, Civilização Brasileira, transborda em talento escritural, em despojamento existencial e, sobretudo, em belas lições de humanidade. Os Diários foram organizados de forma meticulosa. No diário 1, em especial, nota-se o processo de amadurecimento de Lúcio Cardoso em diversos graus. Um tema recorrente desta parte é o que o artista tem a nos dizer sobre suas tremendas dificuldades a respeito das filmagens que faz. E conhecemos, então, o longo caminho para se materializar, não somente um filme, mas, sobretudo, um sonho. Lúcio Cardoso sonhava com a perfeição! Não a meticulosidade dos vaidosos...mas chegar a uma expressão máxima de verdade, veracidade...Incrível como Lúcio buscava a verdade a qualquer custo (diga-se de passagem que seus romances sempre buscaram isso). A arte exprimindo o recôndido do ser. E como tal exigia de si mesmo a sinceridade interior. Nessa busca incansável pela expressão mais pura, encontra-se cara a cara com a solidão, como no seguinte trecho: "Quantas vezes, como agora, diante do erro irremediavelmente cometido, terei de reconhecer que o meu mal - o grande mal de quase todo mundo, mas que em mim assume proporções catastróficas - é o de uma imaginação que nunca permanece em repouso? Não há um terreno vedado ao meu trabalho, percorro a realidade como se todas as coisas tivessem o conteúdo do sonho. O que me consome, ai, é a extensão da minha solidão.  E também: "X já não está aqui. As águas do mar nos separam. Mas é de ausências assim, terrivelmente amargadas, que se constrói a possibilidade de ficar. Não podemos ser tão constantes quanto o tempo, que não nos esquece e nem nos abandona nunca. A imaginação, esse ácido verde, deteriora os mais sólidos sentimentos. Enquanto o tempo é impassível, não perdoa e nem se distrai. Cumpre pois que façamos como se ele não existisse, e atravessamos essas ausências, serenos como se apenas fechássemos os olhos a um sono reparador. Só assim podemos impedir que se destruam os propósitos de solidariedade que condimentam os mais eternos, os mais constantes votos de amor. E que a solidão nos ajude." Em outras passagens o autor faz outras reflexões a respeito de seus momentos de solidão. E ao mesmo tempo expõe, para si mesmo, o quanto o processo de criação verdadeiramente artístico exige uma verdade interior que se traduz no sofrimento, nos limites e nos confrontos com a liberdade de criação e a disponibilidade material, em diversos níveis.
            Um outro aspecto que chama a atenção em Diários é o poder de escrita de Lúcio Cardoso. Ao mesmo tempo em que a obra é, decididamente, extensa, em nenhum momento, a sua leitura cansa. Isso indica, em grande parte, o poder de sedução de um escritor que se aproxima dos escritores da literatura universal. Em cada trecho do diário, necessariamente, temos que parar. Refletir essa busca da verdade que o autor nos induz, seduz e reconduz. E com isso a pensar  espaços de interioridade inusitados. Não há como escapar de suas reais armadilhas, como no seguinte fragmento: "Sei muito bem que atravesso agora uma hora escura de transição; ou adquiro o aspecto do novo homem que surge dentro de mim ou pereço sob os fragmentos do antigo. Não se muda aos poucos, mas aos saltos - e é fácil perder-se o fôlego de uma passagem à outra. Acho desnecessário repetir que não sou agora nem melhor nem pior, apenas eu mesmo." Depreende-se deste trecho, que o autor retoma e retorna com outras indagações, um ponto crucial em nossa existência, ou seja, em que medida mudamos? Em que medida mantemos nossa continuidade? E nossa unidade? E com isso aspectos de continuidade temporal  são pensados pelo autor para indicar aos possíveis leitores a ação do tempo que jamais consegue se fixar. Não somente fora de nós. Mas, inclusive, em nossa subjetividade.
            Conclui-se, quase que facilmente, que a obra em questão... uma perspectiva de escrita tão estranha à contemporaneidade, é um grande exercício do pensamento. Mas que requer uma disponibilidade temporal-existencial que dificilmente nos é permitido pelos sistemas, implícitos ou não, dos poderes estabelecidos. Esses poderes que nos esmagam e que de forma hipócrita insistem em subtrair nossa temporalidade. Que insistem em roubar nossa liberdade. O pior é constatar que, hoje, poucas pessoas estejam cientes disso. Há um mecanismo perverso que mascara a subtração do ser. A subtração da criação. Automatiza e petrifica a sensibilidade. Atrofia a percepção. Logo, a criação artística se ressente...mas não desiste em sua obstinação que é resistir e reconciliar o homem em sua incerta busca de unidade.

Obs: Este texto foi publicado na Revista Filosofia.