sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

 

Nove Cartas sobre a Divina Comédia: uma reserva poética


Ana Maria Haddad Baptista


            De acordo com os mais prestigiados estudiosos da cultura grega, o Olimpo tem suas leis. Dizem que por lá existe uma rotina, aliás, nada fácil. Zeus e outros habitantes possuem obrigações. Inadiáveis. Numa atmosfera de leveza insustentável  houve, (fato inabitual), uma verdadeira briga  entre as nove filhas de Mnemosyne. As Musas disputavam, entre si, quem, realmente, teria transportado para as veredas discretas-secretas à Fonte do Esquecimento e às famosas águas congeladas da Memória, um certo poeta. Lembramos que o universo divino de Zeus é contraditório, ambíguo, enigmático.  
            Várias deusas (deuses em silêncio) intervieram na discussão das nove prolongadoras da Memória. Assim imaginamos, de longe, o que ocorreu quando Marco Lucchesi finalizou Nove cartas  sobre a Divina comédia: navegações pela obra clássica de Dante, Casa da Palavra: Fundação Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro. Obra que exala perceptos. Fascinante. Arrebatadora. Contradiz todas as pretensas classificações textuais. Ezra Pound redesenharia 'sua tipologia'. Blanchot não estranharia. Thomas Bernhard atenuaria o habitual pessimismo. Goethe sorriria em suas conversas com Eckermann. Dalí subtrairia arrogâncias. César Leal, saudoso, repetiria às constelações : "sutilíssimo eterno interior".  
            Mas voltemos à briga do Olimpo: quem teria 'guiado' o poeta? De acordo com Hesíodo, Homero e outros poetas, as nove Musas, sabe-se, presidem funções. Clio: história, Calíope: a eloquência, Euterpe: poesia. Cada uma teria uma função primordial. Na briga Euterpe reivindica sua posição. Mas as outras Musas não se calam. Athena, sabiamente, busca uma base conciliatória. Faz com que as nove Musas acreditem que, unidas-reunidas,  conduziram o poeta aos portais da Memória (fontes do passado/ futuro e da verdade).
            Nove cartas sobre a Divina comédia é um presente-plural (plenitude amorosa) que Marco Lucchesi dá para a humanidade. Explodem, ao abrirmos o livro, imagens, ritmos sinuosos, cores, planos, profundidades, musicalidades. O sublime de Kant e Goethe permeiam o todo. Impossível, de saída, iniciarmos a leitura das cartas. O projeto editorial convoca os sentidos do leitor a, primeiramente, folhear o livro em suas diversas dimensões. Após a tomada do fôlego  inicial, aquele que eterniza  instantes, pressurosos-temerosos com o que se anuncia,  ouvimos, intimamente, vozes (vozes, veludosas, vozes) que apresentam, suavemente, a estrutura da obra de Dante. Ondas  convidativas de águas ora calmas, ora quase inavegáveis: "Caro Leitor, Gostaria que aceitasse estas cartas, como um gesto de amizade, atraídos como somos pela Divina comédia. Preferi não fazer uma introdução, com princípio meio e fim. Trata-se de uma declaração de amor e, portanto, exige a forma epistolar." E o autor, sutil e amorosamente, leva, os leitores, a uma viagem-vertigem  pela Divina comédia.
Cada carta é um primor. Ricamente espelhadas, visto que as ilustrações se interpõem entre as cartas. Majestosamente. Há uma  carta que se apresenta com a "filosofia do amor". E aí o diálogo perfeito com Platão e outras fontes não somente filosóficas, mas, também, históricas. O ponto máximo desta carta: "o que é o amor?" Lucchesi nos leva para Santo Agostinho e: "Caro amigo: gosto de lembrar o filósofo Marsilio Ficino, quando indaga o que buscam os amantes. Ele responde que os que amam não sabem ao certo o que procuram. Sentem saudades um do outro, quando separados. E, mesmo juntos, não cessa uma falta indefinida, que os aproxima quando distantes e os afasta quando próximos. O mistério da beleza convoca os amantes a uma dimensão que os ultrapassa." E aqui, explica o autor, um dos grandes enigmas do amor, ou seja, ama-se com mais intensidade quando os amantes estão separados. Mas a presença  não satisfaz a incompletude.  A ausência tortura. Carta após carta são convites para visitarmos ou, obrigatoriamente, revisitarmos a obra de Dante: "...é preciso que você não perca de vista que o Paraíso de Dante celebra a altitude, física e metafísica, do Empíreo, de Deus e da Amada. Que a sua numinosidade depende, sobretudo, da altitude e da transcendência, cuja poesia promove uma abertura sem termo, emprestando a cada verso o sentimento do infinito, a paixão das alturas e uma difusa nostalgia do mais." Lucchesi instiga leituras não somente de Dante! Existem outras vozes (de autores e obras) que fizeram e fazem parte de seu percurso intelectual.

            No entanto, mesmo assim, a leveza e intensidade poética, sempre perseguida pela amplitude dos  silêncios da boa literatura, permitem, a quem nunca teve acesso à Divina comédia, envolver-se com ela. Com mediações suaves e sussurrantes a espaços desconhecidos, em princípio, cheio de brumas. Entretanto, dissolvidas, de forma gradual, à medida que a poeticidade  do autor, misturadas aos autores que cita, nos  conduz, sob seu olhar cristalino e puro, ao  universo do próprio autor: "Todos buscam um porto no mar infinito do ser".  Além de tudo, Lucchesi presenteia os leitores com os cinco capítulos da Teologia mística e uma iconografia (imagens divinas) da Divina Comédia. Esta obra é a prova literal de que a palavra poética conduz o homem a uma reconciliação consigo mesmo e de que a poesia tem o poder do distanciamento. Devolve-nos a capacidade-liberdade de ser o que realmente somos, como afirmou Octavio Paz.  Se pensarmos na espessura vertical-plural que rege o conceito deleuziano de devir, Nove Cartas sobre a Divina comédia é: Devir-humanidade. Devir-sublime. Devir-arqueologia dos sentidos.  Devir- atemporalidade. Eis por que se justifica a briga entre as nove Musas.

Obervação: Este texto foi publicado pela Revista Filosofia, 121, dezembro, 2016.

sábado, 19 de novembro de 2016


Educação: Dos encontros necessários


Ana Maria Haddad Baptista



O mar...um encontro. Os alunos...encontros primordiais. Os rios...encontro com as profundezas e seus mistérios. E, talvez, o melhor de todos: o encontro com a  literatura.  "A poesia não deve mudar o mundo nem sequer melhorar a condição humana, tampouco ser uma alternativa, mas simplesmente uma medicina naturans, uma saída do círculo impossível do destino. A poesia destrói a ilusória escala de valores ditados pela moda, inverte o avesso mediante o retorno da tradição, recusa o perigoso jogo de dados"...adverte o grande poeta romeno George Popescu.
Nessa medida, encerramos o semestre no curso de Letras da Universidade Nove de Julho com um belo sarau. E o mesmo poeta romeno nos diz (depois de seus encontros com o silêncio):


Prova de Homem

Na densa e silenciosa escuridão como a noite
de um amor desperdiçado
sequer uma palavra
só o nariz erguido na direção de um céu invisível

zigoma apertado nesta imagem
que cai no teu ventre como um cão
magoado na soleira de sua última vontade
de torna-se homem.






sábado, 5 de novembro de 2016

Dos Encontros: Carteiro Imaterial



Ana Maria Haddad Baptista




         

Diz-nos Octavio Paz, o fascinante em todos os sentidos, que a vida de um homem poderia ser resumida, facilmente, pelos encontros que sua vida possibilitaria. E diante de um mundo que nunca nos pareceu tão caótico, historicamente solitário, encontramos Carteiro Imaterial, Marco Lucchesi, da editora José Olympio.
         




Trata-se de uma obra de ensaios. O que mais nos espanta, não há dúvidas,  é a extrema coragem, de nos dias atuais, um escritor lançar um livro de ensaios. E pasmem! Um livro sério! A unidade da obra, em especial, está na erudição e no constante diálogo com a tradição e com memórias.  Destaco, entre os muitos e muitos ensaios do livro, JGR: sertão ocultado demais. Este ensaio me toca mais de perto. Lucchesi vai nos falar, entre outras coisas, da  ambiguidade de Diadorim no único romance de Guimarães Rosa, ou seja, Grande Sertão Veredas. Nas palavras do autor: "Trata-se de uma prosa que se deseja interminável, produtora de poético fascínio e tensão, cuja leitura se desdobra em múltiplas camadas e apelos, atraída pelo polo magnético da espessa matéria semântica". A ambiguidade está no ponto em que o jagunço, na dúvida de sua identidade sexual (amorosa) e que inclui Diadorim, deixa de lado o maior amor de sua vida. Deixa de vivê-lo por puro preconceito.  O que pode um preconceito? Destruir sonhos, paixões, amores, famílias e tudo o que envolve a felicidade. E as paixões alegres. Os encontros (dos mais variados) ganham materialidade aos descobrirmos, por exemplo, que alguma coisa em nossa interioridade ficou mais inquieta, mais rica e dialoga com outras vozes. Foi o caso do feliz encontro com Marco Lucchesi, alunos e professores da Universidade Nove de Julho. E, claro, Carteiro Imaterial !
         







sexta-feira, 14 de outubro de 2016



Nobel 2016

Ana Maria Haddad Baptista

         Desde os felizes tempos em que os bichos falavam com a humanidade... os prêmios existiram. Assim como os critérios para entregá-los. Inútil, sabe-se disso, chegar-se a critérios totalmente justos. Um prêmio deveria se pautar pelo qualitativo. E como avaliar o qualitativo? Qualitativo (o bom e velho Bachelard) não possui peso e, muito menos, medidas.
          O  Nobel é um prêmio importante (sempre tive desconfiança). No entanto, somente para ficarmos com um exemplo em literatura, lembremos que um Proust, por exemplo, não ganhou. E muitos e muitos que deveriam ter obtido o Nobel jamais viram nada.
         De repente Bob Dylan... "para feliz escândalo popular", como diria Guimarães Rosa, uma expressão da música, ganha o prêmio em literatura! E os argumentos, entre outros recheados de hipocrisia, de que a música de Bob é extremamente poética! Ora senhores! A verdadeira música deve se pautar, inclusive, pelo grau de poeticidade a que se propõe! Bela novidade!
         Octavio Paz, há dezenas de anos, em seus belos ensaios que integram Signos em Rotação, (um clássico obrigatório), analisa como ninguém questões como musicalidade, ritmo, sonoridades, cores, aromas e outros elementos que estão contidos na poética. O que seria de um romance sem musicalidade? Um relatório!
         Ora! Atribuir um Nobel em literatura a um compositor-cantor (de valor, sem dúvida) é, realmente, um escândalo estético que abre precedentes perigosos! E o que é pior: os famosos midiáticos, vulgo tudólogos brasileiros, aprovaram a Academia Sueca como verdadeiros cordeiros. Totalmente submissos à decisão! E, ainda, elogiando! Achando que foi um avanço! Enquanto isso Mia Couto, Adonis, António Lobo Antunes, Milan Kundera e outros...permanecem na fila de espera!
         Imagino Sartre, um dos poucos que teve a coragem de chutar o Nobel, rindo sarcástica e causticamente de nosso amado autor de Cem anos de solidão! Brindando com Simone de Beauvoir sua declaração final em Que é literatura? Ou seja..."Se a literatura se transformasse em pura propaganda ou em puro divertimento, a sociedade recairia no lamaçal do imediato, isto é, na vida sem memória dos himenópteros e dos gasterópodes. Certamente, nada disso é importante: o mundo pode muito bem passar sem a literatura. Mas pode passar ainda melhor sem o homem".
         Em tempos de aridez, em todas as dimensões, nada como ler Meus Prêmios de Thomas Bernhard. Livro que expõe, ironicamente, os diversos critérios que regem a miserabilidade de prêmios, condecorações, homenagens e outros da mesma laia!